GRITO-POESIA-CANTO FORTE E LÚCIDO DE MULHER BRASILEIRA NEGRA

por Roberta Marcolin Garcia

A mulher vem do meio do público, surge do meio de nós. A mulher fala com voz miúda. O teatro-o-mundo-é-coisa-gigante-que-engole-gente-e-gente-engole-gente-mundo-teatro. Difícil escutar aquela mulher em sua pequena fragilidade-fala-sussurro-ininterrupto.

“eu sobrevivi do nada, do nada
eu não existia
não tinha uma existência
não tinha uma matéria”


(Stela do Patrocínio)

Ela vestida de branco. Um grande palco preto nu e um piano. Sua voz difusa. Acordes nos invadem. Misturam-se à voz da mulher. Difícil ouvir o que conta a pequena mulher aos nossos olhares, ouvidos. É preciso atenção para compreender o que a mulher fala. É preciso querer parar para ouvir a mulher.

Assim começou “Entrevista com Stela do Patrocínio” na abertura do 2º FELT no emblemático Teatro Municipal de Santo André – Antônio Houaiss, espaço sonhado que, no passado, abrigou lutas e resistências dos artistas da cidade para concretizar sua existência e que, hoje, é palco de outras disputas para decidir o que se colocará em pauta, a quem se dará a voz e o direito ao foco num momento em que a cultura, na dimensão do nosso território Brasil, grita pela boca de artistas, de fazedores de cultura, para que ela não seja jogada para o canto, não seja mais uma vez desmontada. E assim, as sobreposições das coisas do mundo, das coisas do teatro, do que se sabe realidade, do que se sabe ficção, já se fazem presentes em nosso modo de sentir e viver a história que será contada.

Há inúmeros caminhos pelos quais os sentidos podem captar um espetáculo e uma reflexão sobre este pode ter como mote diversos aspectos. Nessa percepção que aqui se apresenta, nesse ponto de vista singelo, o norteador para esta reflexão se apoiará em dois pilares absorvidos a partir da fruição de “Entrevista com Stela do Patrocínio”:

Do por que um coletivo de artistas opta por falar/refletir sobre determinado tema?

Por que será que um grupo de artistas resolve colocar no foco da cena a fala (diga-se de passagem a potente fala poética) de uma mulher?
De uma mulher brasileira?
De uma mulher brasileira negra?
De uma mulher brasileira negra empregada doméstica esquizofrênica?
Mulher esta que viveu a maior parte de sua vida internada em hospícios?
Por quê?

(Capa do livro “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome” com poesias de Stela Do Patrocínio – imagem extraída da internet)

Conforme o espetáculo canta poesias pesadas e lúcidas de uma mulher brasileira negra empregada doméstica esquizofrênica percebo que talvez esse coletivo de artistas queira desordenar o que parece ser a ordem “natural” de nossa percepção. Apesar de vivermos no século XXI onde a um clique na tela de um celular podemos nos conectar às informações, por exemplo, da física quântica que pode (se atentos estivermos) ampliar nossa ideia sobre as coisas dessa nossa matéria-vida. Porém sabemos que nesse mesmo momento em que vivemos as barreiras estão sendo fortificadas, as fronteiras… Entre certo e errado, realidade e ficção, nativos e estrangeiros, possível e impossível, racionalidade e subjetividade, bom e mau, sanidade e loucura…

O espetáculo abre caminhos para o público sentir-refletir através da poesia de Stela sobre essas fronteiras. A fala dessa empregada doméstica negra nos invade e nos faz questionar tantas coisas, como por exemplo, se ela era realmente louca? Ela deveria ter sido confinada num hospício aos vinte e poucos anos de idade? No transcorrer, as conexões se fazem inevitáveis: quantas jovens estão confinadas em novas instituições com o intuito de recuperá-las de possíveis desvios sociais? Será que essas meninas-moças, em sua maioria negras e pobres, coincidentemente, ou não, como Stela, serão recuperadas?! Na caminhada junto à poesia de Stela, a Georgette Fadel (que interpreta Stela), a Lincoln Antonio (pianista), ao piano, à luz, ao escuro, a Juliana Amaral (Neli – a entrevistadora), ao palco vazio… Começamos a indagar  o nome que se dá ao que está à nossa volta. Por que cada coisa está no lugar em que está? A fala de Stela é de tanta lucidez, ironia refinada, de uma mulher que entendeu a vida a duras penas. Quem deciciu sobre o isolamento de Stela estava correto? E isso escorre no nosso presente em que a ordem das coisas, tidas como certas e naturais, talvez não a sejam. E em nossa sociedade, ainda hoje, quantas Stelas estão subjugadas em seu presente diariamente? Quantas empregadas domésticas são silenciadas pelo peso do cansaço, pelo salário miserável? Quantas mulheres apanham todos os dias e permancecem caladas? Quantas mulheres guardam consigo suas reflexões sobre a vida, suas dores? Quantas mulheres acreditam que suas histórias não tem a mínima importância? Nessas condições, enlouquecer talvez seja uma saída, mas, infelizmente, não é uma solução… A dor, o sofrimento, ganham novos contornos.

E se esse mar de questionamento surgiu a partir do encontro que o espetáculo propicia, podemos acreditar que talvez o coletivo de artistas deseja instigar no público a mola propulsora de questionar-se perante a realidade em que vive. E isso, acredito, é papel fundamental da arte. Pelo menos da arte que penso ser necessária nos dias em que vivemos.

Quando o espetáculo detona essa imersão do espectador em sua própria consciência, ele amplia a noção de que as linhas divisórias que antes eram tão óbvias entre coisas/conceitos e que pareciam opostos podem não ser tão óbvias assim, podem ser, de repente, complementares. Assim, as fronteiras vão se desfazendo a olhos vistos e nossas certezas começam a derreter sutilmente como uma pedra de gelo sobre uma mesa. Nesse momento, abre-se uma fresta, uma pausa no tempo-percepção, o vazio-caos. Reação essa de suma importância para um tema como esse ser tratado de forma nova, porosa e provocadora. Quando nossas certezas são abaladas abrem-se para o nada, o não-ter-certeza-das-coisas…

“Há o pensar, o não pensar,
e além do pensar e não pensar”
(Mestre Zen Eihei Dogen)

Assim, positivamente, “Entrevista com Stela do Patrocínio” nos incita ao novo perceber.

Do como o coletivo de artistas dá forma ao conteúdo escolhido?

 Trazer à cena um espetáculo em que a personagem central está internada em um hospital psiquiátrico há mais de 12 anos – informação essa contida no programa do 2º FELT na sinopse da peça – não é tarefa simples. Ao ler a sinopse é fácil nossa mente ser direcionada para o que se costuma falar, refletir sobre loucura, sobre os loucos. Fácil é a montagem cair no lugar comum em que se trata a loucura, com todos os clichês dos loucos que viveram e ainda vivem internados em hospícios, clichês criados propositalmente, e mantidos por motivos diversos no curso da nossa história, dentre eles o de manter tudo como está, na sua caixinha. E aqui a encenação haikai, a interpretação madura de Georgette, a música persongem de Lincoln, a entrevistadora comparsa, fugiram a esses conhecidos clichês. Quase não interpretação, quase não há persongem e isso não se trata de uma crítica negativa, afinal, para quem, como eu, trabalha a arte do representar sabe o quão difícil é estar nessa zona do não-interpretar porém conseguir comunicar…

“essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira”
(Paulo Leminski)

Temos em cena uma Stela que canta afinada, em harmonia com o piano, em equilíbrio com suas ideias, com controle sobre seu corpo, sobre seu descontrole, percebendo onde há luz, vivendo com seu corpo em estado poético no espaço vazio daquele teatro-hospício-espaço-vazio (talvez a poesia a salvou). Essa escolha leva o público a desconstruir, revisitar, seus conceitos sobre a famigerada loucura, sobre como se trata o que se dá nome de loucura.

“pelo chão você não pode ficar
porque lugar de cabeça é na cabeça
lugar de corpo é no corpo
pelas paredes você também não pode
pelas camas você também nao vai
poder ficar
pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
porque lugar de cabeça é na cabeça
lugar de corpo é no corpo
é dito:”
(Stela do Patrocínio)

(Stela do Patrocínio – imagem retirada da internet)

A opção pela persongem de Stela cantar suas reflexões sobre a vida confere lirismo e distanciamento o tempo todo, acredito que, proposital, à encenação, pois o que ela diz já é duro, áspero. A música, que se esconde e se revela, nos permite seguir com Stela, seguir para dentro de nós, em nossas certezas abaladas. E devido ao trabalho de Georgette ter forte influência do teatro épico (e aqui o épico está colocado, a meu ver, de forma sútil, quase invisível, mas está lá), diversas vezes nos confundimos entre quem fala, quem canta, quem nos olha. Será Stela ou Georgette? E de forma simples, isso vira linguagem. É Stela ou é Georgette? Isso já não importa. O que afeta é o que Stela um dia disse e que fique registrado em nossas retinas, em nossos corações, as fortes imagens criadas com sua poesia. E na imersão no espetáculo… As sobreposições se ampliam, se aprofundam, se confundem, é Stela? É Georgette? Sou eu? É a mulher que está ao meu lado? Nesse ponto algo novo acontece: a poesia no fluir do encontro vai nos aproximando infalivelmente da humanidade de Stela, sua loucura ficou lá na sinopse, e, com espanto e encanto, as reflexões que a mulher negra tem, as respostas que ela dá à entrevistadora… São brilhantes. Quando, por exemplo, no trecho abaixo da peça, num diálogo interessante entre a entrevistadora Neli e Stela:

Neli: Você não tem vontade de produzir alguma coisa de ganhar dinheiro?
Stela: Eu tenho vontade de ganhar dinheiro mas não tenho vontade de produzir nada
Neli: Você tem alguma ideia de como ganhar dinheiro sem produzir?
Stela: Ah! Ganhar dinheiro sem produzir é ficar na fiscalização na vigilância espionagem

E assim, o público caiu na gargalhada porque compreendeu a ironia refinada de Stela e sua inteligência. Ela percebe que há muita gente ganhando dinheiro sem nada fazer, simplesmente às custas dos que trabalham. Pessoas vivendo às custas dela, Stela, a louca. E aqui, mais uma vez, há grande identificação da persongem com cada um de nós e já não temos uma mulher louca em cena, mas uma mulher que compreende os mecanismos de exclusão do mundo em que vive, onde o hospício é mais um dos tantos possíveis e hostís microcosmos que se repetem os padrões de convivência, de esmagamento das diferenças.

A iluminação e a música do espetáculo surgem como outras personagens em cena, ou melhor, como se fossem duplos de Stela, outras formas de narrar suas mazelas, suas expropriações e claro sua força. Mas o interessente é que no geral, luz, música, personagem, são uma só coisa: um coletivo de artistas a construir, e salvaguardar, a narrativa e a memória de uma mulher. Como se a luz e o som tentassem revelar outras camadas dessa mulher. Conversam com Stela, conversam com o público.

Para finalizar, falar de um espetáculo que está há mais de 10 anos na estrada poderia ser difícil, tanta coisa já foi dita, mas é possível refletir sob diversos aspectos. Porque vemos tantos trabalhos que estão com anos de estrada e já cristalizaram tudo. Vemos por aí peças, com pouco tempo de estrada, há um coletivo em cena desmotivado de contar aquela história, e isso assusta, então tudo fica mecânico e desinteressante. Felizmente, aqui, parabenizo o coletivo porque “Entrevista com Stela do Patrocínio” é como deve ser o teatro, encontro único, vivo, que nos movimente e inquiete. Vi esse espetáculo em 2004, nesse mesmo Teatro Municipal de Santo André – Antônio Houaiss. A espiral do tempo ainda nos traz problemas semelhantes aos de outrora – presentes no hoje – o  Senhor Cidade Linda quer escolher o destino de quem  incomoda a ordem das coisas, quer deixar a cidade linda, limpa, a qualquer custo, diz querer tratar as pessoas que apresentam possíveis distúrbios retirando-as a força do local em que vivem… Nos ingamos se isso é certo? E ainda nesse tempo temos tantos Trumps por aí… Por isso, ainda se faz necessário e imprescindível que a caminhada de Stela siga forte e enraizada com este espetáculo e com outros que nascerão dele. Que o encontro ocorrido na abertura do 2º FELT, o próprio FELT, essa reflexão que aqui se encerra, a Escola Livre de Teatro, o teatro no ABC, os coletivos de pesquisa teatral, sirvam como inspiração para fazermos um teatro comprometido com seu tempo, levarmos nossas ideias e ideais avante. Pesquisarmos, coletivizarmos aspirações e procurarmos, como arqueólogos, o que não está no foco e dar o devido foco ao que é relevante para transformar esse nosso mundo em um lugar melhor de se viver, mais justo. Menos hospícios, menos fronteiras! Mais poesia, mais Stelas livres como estrelas!

Obs 1.: antes que me esqueça de contar, esta que aqui reflete foi aprendiz da Georgette na ELT, na querida Formação 4, nos idos de 2002, 2003. A felicidade de ainda trocarmos na espiral da vida é grande. Há gratidão pelo ontem e pelo hoje. Ohm!

Obs 2.: Gostaria aqui de dizer que esta reflexão sobre “Entrevista com Stela do Patrocínio” foi escrita no dia 02/Julho/2017, antes da questão ocorrida na apresentação do mesmo espetáculo no dia 03/Julho/2017, na Bilioteca Mário de Andrade, onde uma pessoa da plateia chamou a atenção para o fato de que Georgette, branca, faz o papel de Stela, negra. A reflexão acerca da legitimidade de Georgette, ou qualquer pessoa branca, representar uma personagem negra, nos tempos de hoje, seguiu após o espetáculo. Resolvi fazer essa nota, para falar que não modifiquei o corpo da minha reflexão acima, mantive as minhas percepções acerca da peça que vi no dia 01/Julho/2017, e do ponto de vista de mulher branca que sou (se a apreciação for ingênua no que se trata à questão racial, que sirva também como ponto para nossa reflexão e transformação). Porém, uma vez que a apreciação ainda não havia sido publicada, e por acreditar que, como pessoas que fazem teatro, comprometidas com um teatro que tem recorte social, que reflita em cena seu tempo, como é o caso, acredito a nota importante para eu inserir minha opinião no caso ocorrido. Nesse momento histórico em que vivemos, onde os movimentos socias como o dos negros, das feministas, dxs LGBT’s e outros, estão em pleno debate eu, particularmente, não tenho as certezas de pessoas que saíram gritando (em alguns comentários com certa dose de raiva, desnecessária do meu ponto de vista), nas redes sociais, aos quatro ventos que a linguagem teatral é livre para colocar em cena o que desejar, da forma que desejar… “Que o teatro é a arte da liberdade estética onde homens interpretam mulheres e vive-versa, brancos podem interpretar negros e vice-versa”. Enfim, eu não tenho essas certezas agora, e nem quero forjar uma certeza instantânea, tipo certeza-miojo, para agradar alguém. Minhas opiniões estão em suspensão, transformação, em estado de debate e meditação.

Porém acho positivo o debate acontecer, mesmo que às vezes seja no embate, porque estamos em instância de transformação. Assim, acho importante o coletivo que faz o espetáculo refletir, ouvir, dialogar, ouvir, sobre o ocorrido e, assim, decidir qual caminho seguir. O que tenho buscado, como mulher branca, tanto na relfexão sobre questões raciais, quanto de gênero, e outras, é ampliar a capacidade de escuta, criar uma área de debate onde estejamos predispostos à mudança coletiva.

Evoé, teatro é conflito. Não damos um passo sem atrito. Dioniso embaralha as máscaras e quer mais da gente! Sigamos no presente-diálogo!


Roberta Marcolin Garcia
é formada na E.E.P.S.G. Padre Aristides Greve em Santo André, onde teve muitas aulas vagas de todas as matérias. Fez uma coleção de desenho livre nas aulas de educação artística. Aos treze anos, começou a trabalhar com distribuição de panfletos em portas de universidades, escolas, faróis de grandes avenidas. Foi garçonete em Santo André e São Caetano do Sul. Foi muambeira. Como atriz, trabalhou como palhaça, contadora de histórias, mímica, recreadora. Teve relevante experiência com personagens diversas (destaque para as fantasias de pelúcia da turma do Pokemón, Teletubbies, Power Rangers, As Meninas Superpoderosas, bruxa, princesa, investigador, etc) em aniversários infantis, eventos tantos,  em portas de grandes corporações nacionais e multi-nacionais, escolas de línguas estrangeiras. Contou histórias para meninas e jovens em situação de privação de liberdade, a maioria meninas-moças negras e pobres. Trabalhou com organização de camarins de grandes bandas nacionais e internacionais. Não fala inglês. Na sala de aula da sua escola, da 6ª série em diante, vendeu salgadinhos, bolos e lanches (15 anos de experiência). Branca, nunca trabalhou como empregada doméstica.

 

 

 

 

 

 

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