por Johana Albuquerque

No 2º dia do 2º Festival Livre de Teatro, em Santo André, a Cia. Arte Móvel, coletivo voltado ao teatro de animação, nos trouxe seu mais recente espetáculo, “N”, em torno dos refugiados que abandonam suas terras em busca de melhores dias. A montagem é fruto da uma pesquisa a partir da leitura do mundialmente conhecido Diário de Anne Frank, comovente depoimento da jovem judia morta em campo de concentração no fim da II Guerra Mundial. “N”, carrega em seu título, os vários ninguéns, nada e nenhuns que vivem uma vida inóspita e sem destino, na fuga de um perigo iminente e na esperança de um dia encontrarem paz e alento em suas vidas.

O grupo, já nas primeiras cenas, nos brinda com uma exímia habilidade na manipulação de bonecos e objetos, e com uma excelente preparação corporal dos atores. A cena da apresentação dos três personagens, refugiados que carregam suas casas nas costas sob a luz do luar, já nos encanta com uma bela imagem. Ao encontrarem uma mala estrangeira, de onde “despertam” do passado, por entre muita poeira, um vestido, um chapéu feminino e um diário, os atores manipuladores revelam uma detalhada e lúdica movimentação, trazendo a cena da menina que brinca, única e exclusivamente pela dança com esses objetos. O livro é o porta-voz das palavras da menina Anne, através da leitura de trechos de seu diário.

São nesses momentos, ao entregarem-se às metáforas e à construção de potentes imagens poéticas com os bonecos e objetos, libertando-se do sofrimento e da dor das miseráveis situações de seus personagens, que os atores revelam o seu maior talento:  a cena onde pequeninos móveis constroem a casa da menina- boneca que, animadamente, toca piano, é de uma delicadeza admirável. Assim como o campo de batalha, formado por pequeninos guerrilheiros armados, somados ao voo de aviões de guerra sobrevoando a terra devastada, é outra preciosidade na capacidade de ilustrar cenas cinematográficas através de simples e convincentes efeitos. Depois de cenas árduas, que tentam espelhar o horror e a morte, o momento de encontro entre o vestido e a boneca é redentor de um jogo amoroso de afeto entre os objetos, fazendo-nos comover com a pureza e singeleza do universo infantil.

Da mesma forma, a relação com as casas baús – diga-se de passagem, uma ótima solução cenográfica! – é digno de nota. As caixas são carregadas nas costas, mas também são o esconderijo para os seres inanimados que surgem e ganham vida nas mãos dos atores, como também, servem de base e suporte, dispostas de diferentes formas no palco, para elevar as paisagens e ambientes construídos para executar as ações dos bonecos e objetos. O momento em que as caixas tornam-se barcos em pleno mar, agitado por uma maré turbulenta, somado ao som dos batuques e fumaça vermelha, assim como, a fila indiana de roupas que passa no fundo do palco, nos surpreende com efetiva situação de risco e fuga das personagens, aludindo a muitas cenas contemporâneas que assistimos nos jornais, cotidianamente, em torno dos refugiados que se lançam em alto mar e em territórios inóspitos para escaparem da guerra e da morte.

“N”, por ser o primeiro espetáculo adulto da Cia. Arte Móvel  – que carrega uma experiência já de três espetáculos infantis em seu histórico – , carece ainda de um certo enquadramento de linguagem para o público adulto. A voz da criança em off, remete a uma certa infantilidade excessiva. O alter-ego da menina Anne seria mais convincente se realizado com sinceridade por uma criança de verdade. No mesmo tom, a interpretação dos atores, nos momentos em que os personagens revelam suas situações de origem (quadros de miséria e sofrimento humano), não ajudam o publico a compartilhar de suas penúrias. O texto é sempre vocalizado com um sofrimento, ainda que formal, muito acima da chave da verossimilhança, o que distancia os espectadores.

A dramaturgia também carece de ajustes, por se munir de uma embocadura um pouco didática e piegas, querendo ditar como devemos buscar o caminho da esperança e da liberdade ou pela forma de como identifica a nossa situação eterna de refúgio diante das difíceis emoções da vida.

O código da divisão entre personagens e narradores ao longo da peça também não é muito claro para o público. Em certas passagens, os próprios personagens atuam com muita articulação nas palavras, entrando em detalhes sobre os episódios de sua história e, em outras, balbuciam e repetem certas palavras como se fossem crianças aprendendo a falar naquele momento.

A entrada da fumaça em cena também se coloca, algumas vezes, inadequada. Quando dentro do contexto, como nos casos da tempestade em alto mar ou a batalha campal, surge de forma acertada e chega a se configurar como elemento poético. Mas nem sempre isso ocorre, as vezes se colocando como uma necessidade da iluminação de causar efeitos mais sinuosos com a luz, o que quebra com o universo ficcional da peça. A presença da projeção não chega a ser realmente efetiva, soa tímida e fora de esquadro, no meu entendimento, totalmente dispensável.

Uma das imagens finais da peça retornam ao valor maior da cia. A miúda boneca segura o mundo com suas pequenas mãozinhas, como se brincasse e voasse, magicamente, com uma bola, numa antítese á cena icônica de Chaplin caricaturando o flerte de Hitler com o grande globo da Terra.

A Cia. Arte Móvel deve acreditar mais na força poética de sua linguagem e investir mais no jogo lúdico e singelo de suas belas imagens, que nos trazem poderosas metáforas. Teatro é jogo, magia, mistério, e isso o conjunto de atores têm de sobra. “N” poderia ser redesenhado pela direção numa chave mais enigmática, suave e verdadeira, fazendo juz à menina Anne que, apesar de ter sofrido as agruras da guerra, sempre teve delicadeza e pureza no coração. Teatro infantil ou teatro adulto são apenas convenções, e ambos os públicos, no contemporâneo, tem inteligência e sensibilidade para assimilar meios tons e meias palavras, sutilezas, evocações, poesia, enfim, para fruir uma obra de arte. A Arte Móvel tem talento e técnica para construir espetáculos voltados para todas as idades.


Johana Albuquerque
é atriz, diretora, produtora e pesquisadora teatral

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