por Johana Albuquerque

O que você realmente está fazendo é esperar o acidente acontecer é um espetáculo construído pela Cia. de Teatro Acidental, formada por atores egressos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, que tem como disparador O Beijo no Asfalto, texto de Nelson Rodrigues, escrito em 1960. O mote principal da peça parte de um peculiar e inusitado episódio para os padrões da época: um atropelado, minutos antes de morrer, pede um beijo na boca ao desconhecido Arandir, que casualmente correra para socorrê-lo no momento do acidente. A tragédia vivida pelo protagonista é o resultado da intriga farsesca maquinada por um repórter policial, Amado Ribeiro, que se vale da cumplicidade de outro maquiavélico personagem, o delegado Cunha, para criar uma matéria sensacionalista que lhe permita alavancar a venda de jornais. Provas são forjadas, depoimentos taxativos e mentirosos ganham a aparência da verdade para destruir a reputação de Arandir, homem casado que, do dia para a noite, desafia a moral da ética e dos bons costumes da família brasileira, e torna-se um canalha, um inescrupuloso homossexual.

No início do espetáculo, a encenação engana a plateia ao apresentar uma leitura, quase branca, com certa aparência de rádio novela, do texto de Nelson. Mas isso é só o start do espetáculo. A investigação da Cia. de Teatro Acidental se utiliza do enredo da peça de Nelson Rodrigues apenas como pretexto, desdobrando e desconstruindo esse material para atingir o seu verdadeiro objetivo: colocar em cena as convulsões de uma sociedade extremamente polarizada, movida pelo ódio cultivado pela mídia e pelas redes sociais, em nome da liberdade de expressão.

Temos assistido a episódios assombrosos em torno do ódio e barbárie do brasileiro, fazendo cair por terra o conceito de “homem cordial”, elaborado por Sérgio Buarque de Holanda, em Raizes do Brasil, e colocando em seu lugar o “homem vingativo”, que diante do caos, tenta realizar justiça com as próprias mãos; aquele que alimenta o desejo primitivo de se vingar, no próximo, da injustiça e violência que cercam as suas próprias vidas.

Para investigar esta anomalia da realidade nacional, sentados em uma mesa, e tendo sempre duas telas a frente, que nos remetem imagens do back-stage e de câmeras ocultas de vigilância – nos dando a medida concreta da apreensão invasiva e silenciosa de imagens do cotidiano da cidade e de seus cidadãos –, os atores assumem a voz de diferentes personagens reais, sejam estes ilustres ou anônimos, engajados neste processo de embrutecimento nos últimos anos em nosso país.

Repórteres, intelectuais, acadêmicos, frequentadores das redes sociais, comentaristas de matérias on line, blogueiros, bisbilhoteiros da vida alheia, religiosos, fanáticos, radicais de direita e de esquerda, ignorantes e estúpidos, todos exibem seus discursos num debate bizarro a partir do acontecimento da concessão de um beijo na boca a um moribundo, que resulta na destruição da reputação de um homem.

Chegamos, então, aos desdobramentos do episódio, que emergem assuntos corriqueiros contemporâneos na mídia e nas redes sociais, abrindo espaço para edição, distorção, ocultação, reconstrução e manipulação de fatos, instituindo um inquérito que propicia o ataque e a agressão direta de homens diante de outros, muitas vezes num confronto virtual, num despencar de máscaras, que revelam a intolerância, o preconceito, e até o horror a que estamos sendo submetidos nas grandes cidades.

O “Black Mirror” a que estamos sendo expostos nos transformam em cidadãos rendidos, em que podemos não somente ser alvo dessas “invasões de privacidade”, como também, nos eleva a situações de algozes de outros, diversos, opostos, e por isso, passiveis de nossos ataques. A peça é uma denúncia gritante da grande loucura que está sendo operada no país – a crueldade é uma nova arte e vem estabelecendo um novo paradigma, um novo parâmetro para o inconsciente coletivo: a normalização do crime.

Esses diálogos vão sendo levados às últimas consequências, que não poupam a plateia dos mais abjetos e cruéis comentários, das mais perversas intenções e provocações, que ferem sensibilidades mais recatadas e divertem espíritos livres ali presentes. Nada de bom comportamento! A Cia. de Teatro Acidental é irreverente e libidinosa em sua abordagem dramatúrgica, realizando uma inusitada releitura do legado intelectual de Nelson, um de nossos maiores escritores, cujo tema recorrente é o erotismo inconsciente que permeia o pensamento da sociedade brasileira e que, através de seus bizarros personagens, sempre afirmou que aqueles que defendem um falso e austero moralismo, em verdade, são os verdadeiros egoístas, anti-éticos e amorais.

A encenação de Carlos Camanheiro é alinhada com as tendências da nova geração de encenadores, se utilizando de procedimentos característicos como, por exemplo, o processo colaborativo, a fusão de ficção e realidade como substrato cênico, a cineficação do teatro, a interação com a plateia, a performatividade e a quebra de convenções teatrais, como a instituição de um intervalo cênico ou o fechamento da peça em fusão com a sua própria desmontagem.

Os atores revelam talento e desenvoltura na chave do espetáculo, e nos permitem detectar, de antemão, a competência do conjunto para realizar pesquisa documental sobre as anomalias do contemporâneo brasileiro e antecipar interesse em torno de seus próximos trabalhos. Paradoxalmente, os momentos mais prazeirosos da performance dos atores, são aqueles em que a cena se dá de forma descompromissada e relax, como a cena do ofertório de beijos ou a dança minimalista de todo o elenco ao ritmo da atraente releitura da trilha do filme This Gun for Hire. Registro o desejo de ver a trupe menos protegida pela dramaturgia e mais ousada em torno propriamente das ações cênicas.

A peça revela um encerramento feroz, ilustrativo da nossa espiral de ódio e de comportamentos irracionais, fazendo uma metáfora que nos comparam a animais carnívoros habitantes da selva fechada, sempre atrás da próxima presa, na luta feroz pela sobrevivência.

A resultante conceitual da coletânea de episódios em O que você realmente está fazendo é esperar o acidente acontecer é clara: O Brasil está com ódio de si mesmo!


Johana Albuquerque
é diretora da Cia. Bendita Trupe, atriz, produtora e pesquisadora teatral, idealizadora da Enciclopédia Itaú Cultural Teatro.

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