“Impasse…”: uma – necessária – obra contragolpista!  “Impasse…”: um grito (dis)parado no ar, singrando corações e mentes…

por Alexandre Mate

Rei
Eu sei que sou
Sempre fui
Sempre serei
Oba
De um continente por se descobrir
[…]
De um território que está por explodir
Sim
Mas é preciso ser sutil
Pois justo na terra de ninguém
Sucumbe um velho paraíso
Sim, bem em cima do barril
Exato na zona de fronteira
Eu improviso o Brasil.
[…]
De um território que está por explodir
E
Minha cabeça voa assim
Acima de todas as montanhas e abismos
Que há no país
Mas algo chama a atenção
Ninguém jamais canta duas vezes uma mesma canção.
             “Zona de Fronteira”, João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão.

Tudo à nossa volta (o visto e o modo de se ver; as necessidades reais e o sonhado; o intuído; o sentir e os sentimentos…) recebe nomes específicos e, na maioria das vezes, singulares. Todos os nomes atribuídos, e por meio do qual reconhecemos as coisas, é fruto da cultura. Quase tudo o que supomos saber (e que, eventualmente, até sabemos) decorre de algumas conquistas pessoais e de incontáveis heranças recebidas… Se não formos totalmente alienados, o viver tende a caracterizar-se por incontáveis processos de enervamentos, de afetações, de atordoamentos… Comunicamo-nos, majoritariamente, por meio de códigos linguísticos: sejam escritos, falados, simbolizados… As palavras teatro e espetáculo, por exemplo, correspondem a termos bastante genéricos e concernem, do ponto de vista prático, respectivamente, a uma linguagem artístico-expressiva e a um fenônemo estético-social. Destrinchando um pouco, a linguagem teatral estrutura-se e desenvolve-se na/pela representação. Isto é, e de modo absurdamente simplificado: intérpretes representam personagens, a partir de um texto distinto (previamente criado ou improvisado), colocando-se – e a partir de uma linguagem sofisticadíssima – como mediadores do texto para um público.  Então, e depois de inúmeros filtros: técnicos, emocionais, ideológicos, institucionais, correlacionais…, a obra – nascida ideia, necessidade, interesse, imaginação, invenção, trabalho (muito trabalho) – transforma-se em espetáculo.

O teatro pode ser “aprendido” e praticado em várias situações, sejam elas institucionais ou não. Normalmente, quando institucionalizado, as escolas de formação do ator/atriz tendem a seguir um documento chamado Proposta Político- Pedagógica (PPP para os “íntimos”!). Nesse documento essencial, xs criadorxs/gestorxs da escola explicitam entendimentos sobre a linguagem, objetivos, metodologias, conteúdos, duração e etapas do processo etc. Conhecer o PPP de uma instituição de formação (de teatro ou não) é fundamental! Raríssimas são as instituições que divulgam seus PPPs e mais raras, ainda, são as instituições de ensino atentas aos acontecimentos do mundo. Em inúmeras escolas de formação de intérpretes, é absolutamente senso comum ouvir de criadorxs a tese segundo a qual o processo de montagem da obra ocorre como se não houvesse um mundo real: os ensaios ocorrem em salas de ensaio e em espaços representacionais fechados e apartados de chão histórico-social. Assim, e a partir das mais estapafúrdias justificativas os textos montados inserem-se nas fileiras de textos (ditos) clássicos, e ao sabor estético dos paradigmas hegemônicos.

Evidentemente, os textos clássicos internacionais são importantes, como seriam também os nacionais. Normalmente, nas plagas brasilianas os “inter” levam vantagens sobre os nacionais, mas – e como se sabe – essa é uma outra história. Antonio Candido, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro, Iná Camargo Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão… já escreveram sobre os processos de submissão, subserviência, reificação…  às modas e modelos (im)postos pelas gentes dos países de clima temperado. Inúmeras são as arapucas sedutórias (e mentirosas) para os sujeitos se sentirem fazendo parte do mundo (dito) civilizado, copiando e reproduzindo os modelos de fora.

Torcicolos culturais e ideias fora do lugar à parte…

Na Casa da Palavra de Santo André (Santo André/SP), na fria noite de 08 de julho de 2017, o espetáculo “Impasse ou Isso Não É Uma Peça É Um Golpe” – montado por artistas aprendizes da Formação 18 (F 18) -, foi apresentado pela última vez (espero que não!!). Obra plasmada na história recente do país demonstra, como tantxs outrxs grandes artistas têm feito, que não apenas a “estética magra” (aquela interessante às proposições das classes hegemônicas) pode e deve ser desenvolvida nas escolas de formação de intérpretes.

Seguindo as proposições de inúmeros coletivos teatrais, inseridos no sujeito histórico teatro de grupo paulistano, xs aprendizes da F18 – com diversxs mestrxs-orientadorxs: Cris Rocha, Alexandre Dal Farra, Gisele Calazans, Rodrigo Mercadante… – montam “Impasse…” a partir de diversos expedientes do teatro épico. No plano do assunto, aprendizes, sob orientação e batuta segura de Alexandre Dal Farra, apresentam inúmeros episódios passando em revista os acontecimentos recentes da história do País. As personagens do espetáculo, com destaque à presidenta Dilma Rousseff (deposta por um bando de canalhas, canalhas, canallhas) criam tessituras dramáticas que vão da reflexão ao (necessário) panfletário. Diferentemente de tanta gente que não conhece etimologia e nem estuda a partir de pontos de vista diferenciados, penso que o panfleto é necessário, sobretudo em um “tempo de homens partidos” (como escreveu Drummond). Há episódios cuja elaboração dramatúrgica são absolutamente complexos e emocionantes. Dentre eles, podem ser destacados: o episódio número 6, no qual – e por retórica corrupta – o sujeito de quem se fala mal, ao aparecer e ficar ao lado é colocado na situação de inexistente; o episódio do boteco ou aquele no qual um homem (à procura de um risólis de queijo) “vaticina” quanto ao uso da criação (estratagemas políticos) nos espaços imaginativos: espécie de “imaginação no poder”; de reunião de diversos representantes de tendências políticas. Num geral, emociona a convicção de alguns atores e atrizes ao dizerem – literalmente – seus textos.

Com coordenação geral de Cris Rocha, a encenação apresenta momentos belos, fortes, pungentes e outros mais formalistas e frágeis. Tal “desproporção” é absolutamente compreensível na medida em que o espetáculo é épico (portanto sem uma – abstrata e vendida – unidade estilísta), e fruto de um processo colaborativo, cujxs aprendizes têm diferentes idades e experiências estéticas e de vida. Desse modo, a “desigualdade” estética é absolutamente harmônica em processo dialético de diversidade. Como, apenas, um destaque – e não me lembro de ter assistido a algo semelhante -, chama a atenção uma das atrizes (com roupa extravagante e flor na mão) que – na maioria das vezes, ao lado de onde se encontra o público – assiste aos episódios.  Já no fim do espetáculo, a personagem apresentado pelo excelente ator Marcos Emanoel apresenta aquela misteriosa personagem: trata-se da alegórica utopia.

As cenas, em todos os episódios, e é possível constatar isso cabalmente, são coletivas e repletas de múltiplos achados e polifonias. Tanto a dramaturgia de texto como a dramaturgia de cena, em seu processo de apresentação, vão criando uma tecitura poliédrica. Todas as direções e narrativas são possíveis… Afinal, trata-se de uma obra coral, cujos protagonismos são instâncias em vacância: quem ali está pode ser substituídx por inúmerxs outrxs.

O maior de todos os problemas – se se puder assim afirmar, e isso decorre de uma conquista histórica da Escola Livre – concerne ao uso dos espaços diferenciados na representação. Adotando a proposição de representação em processionalidade, na bela Casa da Palavra, que fica defronte à Igreja do Carmo – e tendo em vista a obra ser apresentada em um festivo sábado à noite -, muitos episódios não conseguiram ser ouvidos, sobretudo aquele no qual as Dilmas (do passado e do presente) dialogam. Em cenas internas, algumas vezes, não se podia ver a cena. Pelo que foi possível depreender, e de modo adverso à temática (que trouxe à tona cenas da história do Brasil), xs aprendizes não conseguiram relacionar-se com o espaço circundante (produzido nas imediações). Nesse sentido, e também deveria ser parte no processo de formação, convidar artistas de teatro de rua para algumas práticas na ELT.

As poucas músicas cantadas/instrumentalizadas ao vivo são poucas, mas é muito tranquilo apreender nelas a genialidade “mercadante” do Rodrigo. Atores e atrizes, no geral, estão muito bem.

Para finalizar, sinto na obra-golpe “Impasse…”, em sua finalização e processo, a tese fundante de Walter Benjamin (em “O Autor Como Produtor”), segundo a qual: “Um autor que não ensina nada a outros autores, não ensina nada a ninguém!”. Grande e digno trabalho apresentado por essa gente da F 18 e tantxs de seus/suas mestrxs geniais!!


Alexandre Mate
é professor doutor em História Social pela FFLCH-USP; professor orientador da pós-graduação em Artes do Instituto de Artes (UNESP).

 

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