por João Victor Toledo

O Gambalaia – Espaço de Artes e Convivência, em Santo André, recebeu, na última quinta-feira, dia 6 de julho, a obra “lenz, um outro”, como parte do 2º Festival Livre de Teatro. Baseado na novela fragmentária “Lenz”, do escritor alemão Georg Büchner (1813-1837), o espetáculo do coletivo teatral 28 Patas Furiosas retrata a vida do poeta alemão Jakob Lenz (1751-1792), importante expoente do movimento pré-romântico “Sturm und Drang” (“Tempestade e Ímpeto”), que desestabilizou o universo literário alemão do século XVIII.  Para o amigo Johann Wolfgang Goethe, Jakob Lenz, apesar da aparência angelical e apática, era o único escritor de sua época capaz de conferir à própria poesia a sensibilidade excessiva e genial vista em Shakespeare.

A novela de Büchner – uma excelente escolha do coletivo, aliás – adentra a subjetividade de Lenz, já bastante perturbada pela esquizofrenia, e mergulha livremente em questões filosóficas e espirituais do período, que curiosamente se mostram bastante atuais. O espetáculo tem início com a chegada de Lenz à casa do pastor Oberlin e procura indicar como a instabilidade mental do poeta pode abrir novas possibilidades de ser e de se pensar o mundo em que vivemos. A relação aparentemente apartada do poeta com a realidade apontaria, na verdade, para uma percepção aguçada da existência e uma conexão extraordinária com o universo que o circunda.

Büchner descreve e expõe, em seu texto, a alma do poeta Jakob Lenz. O que faz de sua novela interessante atualmente não reside tanto num interesse especial pela complexidade interior de certos artistas, mas provavelmente na crescente obsessão, ao longo dos últimos séculos, pelo indivíduo e pela psicologia. O caminho para a introspecção e para o auto-conhecimento através do sofrimento infligido contra si mesmo, o mais poderoso legado da tradição cristã iniciada por São Paulo e Santo Agostinho, conferem a Lenz tanto a qualidade de gênio poético como de herói. O profundo grau de seu sofrimento e sua extraordinária capacidade de transformá-lo em poesia, dariam utilidade à sua doença e possibilitariam sua salvação.

O Lenz do 28 Patas Furiosas, no entanto, não enaltece a figura do artista sofredor, nem busca revelar a singularidade genial de Lenz. Interpretado pela vibrante Sofia Botelho, Lenz habita um local imerso na escuridão e na frieza, uma espécie de sótão/cérebro permeado pela violência de sua própria natureza, pela solidão e pelo medo. Sua porta de saída para o mundo lhe oferece apenas a lama para banhar-se. Lenz vê-se rodeado por vultos e pelas demais personagens que, interpretadas simultaneamente pelos demais atores, exprimem a intangibilidade de seu universo.

A quebra por vezes abrupta da ação dramática, que vem sublinhar as desconexões do pensamento de Lenz, surpreende. A dramaturgia descontínua favorece a criação de novas camadas de entendimento e, apesar de parecer por vezes emperrada, presta à montagem uma criatividade potente. O texto dito pelos atores cria uma substância à parte e uma contradição belíssima com a atmosfera decadente em que habitam as personagens. O brilho e a potência do texto de Büchner, aliado à concepção sóbria e afirmativa de Lenz, acabam por proporcionar ao público outras camadas de significação da realidade. O coletivo permite que o poeta surja como um novo sujeito, como a negação de uma identidade já conhecida. Desse modo, o espetáculo acaba por ressignificar Lenz em nossa realidade histórico-cultural, expandindo a leitura do público para além do poeta descrito por Büchner. Lenz aparece, aqui, como a força da instabilidade, do desconhecido. É um impulso que aponta novas possibilidades de observar e atuar no mundo, convidando o espectador a refletir sobre a injustiça, a acomodação e o medo do outro.

Ao sermos confrontados pela pluralidade de realidades existentes numa mente imersa no caos, somos obrigados a analisar a forma como lidamos com a nossa própria existência. Somos lembrados do que somos obrigados a suportar e das questões que estão em nossa fundação como seres humanos e sociedade, do que desprezamos e do que escondemos. “lenz, um outro” é uma defesa contra os ataques de uma sociedade que nos impõe o silêncio de nossa própria loucura.


João Victor Toledo
é ator, formado em Estudos Teatrais e História pela Universidade Livre de Berlim. Como performer, trabalhou com diretores e coreógrafos como Nelson Baskerville, Constanza Macras, Tadashi Endo, com a companhia inglesa Zecora Ura na obra “Hotel Medea”, e com a companhia alemã Bryckenbrant em projetos em parceria com atores com síndrome de Down da companhia “RambaZamba”. Tem como foco de pesquisa o Teatro do Oprimido, as vanguardas europeias do século XX, pós-colonialismo, gênero e racismo nas artes cênicas.

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