por João Victor Toledo

Com direção artística de Alicio Amaral e Juliana Pardo, o espetáculo “Anjos Tortos”, do grupo Azougue – Laboratório de Experimentação Cênica, participou na última terça-feira, dia 11 de julho de 2017, do 2º FELT – Festival Livre de Teatro, no SESC Santo André. O espetáculo teve como ponto de partida de sua encenação o universo dos boias-frias de plantações de cana-de-açúcar do interior do Brasil, propondo uma investigação acerca do estados cotidiano e extracotidiano do corpo a partir desse universo. São incorporados ao trabalho as diversas influências da música, dança e teatro de seus intérpretes e as linguagens do maracatu rural e do cavalo marinho, manifestações populares da Zona da Mata Norte Pernambucana.

Boia-fria é um termo que designa geralmente o trabalhador rural sazonal que, sem – ou quase sem – vínculos empregatícios, se sujeita a baixas condições salariais e de trabalho. A expressão é proveniente do modo como se alimentam durante o dia. Saem para o trabalho no campo por volta das quatro ou cinco horas da manhã e já levam suas marmitas, que estarão frias quando chegar a hora do almoço. Essas massas de proletários rurais, expulsos do campo ao longo do processo de mecanização das lavouras onde trabalhavam como assalariados, migraram para as favelas das cidades vizinhas às fazendas de seus antigos patrões e dispõem sua força de trabalho para colheitas sazonais. Mal-remunerados e muitas vezes flagrados em situação de escravidão ou semiescravidão, os boias-frias constituem uma massa condenada à miséria, a péssimas condições de trabalho e à exclusão social e política.

Nos últimos anos, viu-se crescer enormemente, no teatro brasileiro, a vontade de se dar voz a temas relacionados a minorias há tempos silenciadas e ignoradas tanto social como politicamente pelas autoridades. Devo admitir que fui ao espetáculo temendo assistir a uma simplificação de uma temática tão complexa ou à vontade bem intencionada de se dar voz a um grupo de subalternos; atitudes que, analisando diversos espetáculos dos últimos anos, têm se mostrado bastante paternalistas e pouco problematizadoras de si mesmas. Numa sociedade bipartida como a nossa, estratificada em classes sociais antagônicas, ainda que também funcionalmente integradas, problematizar artisticamente a situação de diversos grupos marginalizados poderia servir – ou ao menos ajudar – na reparação de injustiças muitas vezes históricas e na construção de um país mais igualitário e menos violento. No entanto, falar sobre o universo do Outro ou mesmo colocá-lo em cena, como propõe o chamado teatro documentário, é uma tarefa bastante complicada, ao contrário do que alguns encenadores pensam. Apesar das inúmeras boas intenções que levam alguns artistas a se engajar em muitos desses projetos, movidos claramente pelo desejo genuíno de entender a problemática social de um país tão complexo como o Brasil e pela vontade legítima de libertar muitas minorias das estruturas perversas a que estão sujeitas, falar em nome de alguém ou de um grupo – mesmo pertencendo a esse grupo – não torna um discurso automaticamente reflexivo, dialético ou libertador. A correlação entre social e estético não cria necessariamente um momento político relevante em cena, podendo, muitas vezes, apenas revelar a imprudência de artistas que passam a se julgar autoridades em certas temáticas ou se utilizam delas como pretexto para impor uma visão de mundo autossuficiente.

O grupo Azougue – Laboratório de Experimentação Cênica, felizmente, teve a proeza de fazer o oposto de tudo isso, apresentando ao público um espetáculo bastante perspicaz. O que se vê em cena é um grupo com plena consciência de seu próprio material de trabalho – o corpo – e de como se desenvolver no palco uma proposta através das manifestações folclóricas que pesquisa. Sendo assim, conseguiu-se criar um jogo cênico que trata de pessoas de fato oprimidas sem a presunção de querer salvá-las. A questão dos boias-frias está lá, evidentemente; contudo, ao utilizar como ponto de partida para o próprio trabalho a pesquisa que desenvolve em cima do corpo, o grupo consegue criar uma relação bastante sincera com o público, visto que sabe manipular de forma inteligente o ritmo e as energias propostas por cada intérprete e pelas linguagens do maracatu rural e do cavalo marinho. A dramaturgia, muito consciente dessas diversas energias e das sensações suscitadas por elas, soube criar contrastes e dar a cada uma das partes do espetáculo sua devida tonalidade.

Por um lado, os movimentos executados por quem trabalha no campo, o corpo que surge a partir de uma a rotina extenuante, as pausas, o português rústico, os farrapos, o olhar de quem pouco dorme. Por outro, a energia extracotidiana, as relações humanas que se desenvolvem também fora do trabalho, a alegria e festa que brotam da opressão. E, para além de tudo isso, a percepção do espectador, que reconhece também em si a transfiguração que a rotina impõe ao seu próprio corpo, o vigor do boia-fria, a potência da cultura popular e o desprezo de toda uma sociedade por pessoas e expressões artísticas que agonizam há séculos.

Desse modo, o grupo Azougue – Laboratório de Experimentação Cênica conseguiu criar no palco o distanciamento necessário para tratar de uma temática delicada de forma franca e sensível. Distanciamento não significa criar uma barreira de entendimento e sensações entre intérpretes e plateia; pelo contrário, significa, acima de tudo, comunicar.

Parabéns ao grupo.


João Victor Toledo
é ator, formado em Estudos Teatrais e História pela Universidade Livre de Berlim. Como performer, trabalhou com diretores e coreógrafos como Nelson Baskerville, Constanza Macras, Tadashi Endo, com a companhia inglesa Zecora Ura na obra “Hotel Medea”, e com a companhia alemã Bryckenbrant em projetos em parceria com atores com síndrome de Down da companhia “RambaZamba”. Tem como foco de pesquisa o Teatro do Oprimido, as vanguardas europeias do século XX, pós-colonialismo, gênero e racismo nas artes cênicas.

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