Aquilo que não se pode calar ecoa no mar: Baquaqua!

por Edi Cardoso

Quinta feira 13 de julho de 2017 a sede da Cia do Nó (importante coletivo teatral da cidade de Santo André) recebe em seu espaço o espetáculo BAQUAQUA da Cia do Pássaro, na segunda edição do FELT (Festival Livre de Teatro). O espetáculo nos apresenta a autobiografia do extraordinário Mahommah Gardo Baquaqua, que nasceu homem livre, mas foi escravizado, apartado dos seus, de sua terra, lançado ao mar em um tumbeiro aportando no Brasil, Nova York e Haiti, aprendeu português, inglês para escrever e contar sua própria história.

Casa cheia, somos convidados a tomar assento e a navegar com Baquaqua através do tempo. Estamos em 1845 ou 2017? Dali da proa do barco o que é possível aos nossos olhos avistar?

Os atores Alessandro Marba e Breno da Matta, que se revezam na figura do protagonista, generosamente nos conduzem pela trama e nos apresentam a complexidade do assunto: O que leva um homem a achar que pode escravizar outro homem, irmão seu, feito da mesma matéria corpo, igual na humanidade e no sangue, o que leva um homem achar que outro homem não merece ser LIVRE? É claro que a pergunta é retórica, e revela minha perplexidade. A vida de Baquaqua se entrecruza com a de tantos homens e mulheres também extraordinários e nos mostra todos os dias aquilo que não se pode calar, todos os dias em todos os lugares, Amarildos, Claudias, Ricardos, são arrastadas, apagados, alvejados no peito e nas costas, é o mesmo sangue, o mesmo sangue derramado de nossos ancestrais. A história está lá, esta aqui, e se repete, na violência policial, na supressão de nossas vidas, dos nossos direitos políticos, nos encarceramentos em massa, em um projeto CLARO de anulação. Todo horizonte aponta a África?

Um espetáculo que não tenta dar respostas ou heroificar seu personagem, mas que através de um mergulho profundo nos convida a furar bloqueios, disputar os espaços de produção de pensamento e criação de imaginários, a história NOS pertence e é a partir dela, em primeira pessoa, que escreveremos novas narrativas, é isso que Baquaqua me diz.

Enquanto o leão não aprender a escrever, a história estará sempre a favor do caçador”.

Uma encenação simples, clara e objetiva, com uma dramaturgia muito bem alinhavada, apresentando algumas alegorias representativas de poder (a estátua da liberdade, a igreja, o capitão do mato, a justiça) estão ali para nos lembrar de qual é o papel que querem fazer o negro ocupar.

FREEDOM, palavra que parece não caber na boca e nem na história, palavra que parece desenhar um voo no ar, que parece querer alcançar LIBERDADE, que no dicionário significa: 1- direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem. 2 – Condição do homem ou da nação que goza de liberdade. 3 – Conjunto das ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão. Porém ao negro NÃO!!!

“Somos todos negros, mas não somos iguais. Um expatriado em cada esquina há patentes entre nós”.

 Esta frase que até agora ecoa em minha cabeça, me faz pensar no meu contexto, no meu lugar de identificação e pertencimento enquanto mulher, negra, brasileira, ARTISTA, na responsabilidade que tenho, a partir do lugar de onde falo, no entendimento e ressignificação das relações e dos espaços que desejo fomentar.  Nós negros somos muitos e somos múltiplos, somos descendentes sim de um povo que foi escravizado, mas este fato histórico não nos tira a potência e nem a força dos braços para almejar a construção de um mundo mais igualitário.

E isso a Cia do Pássaro faz isso muito bem, Baquaqua é um espetáculo que não apresenta ressentimentos, revela os fatos e nos aponta para um horizonte possível de olhar, partir da alteridade e da potência de vida que não se apagará.


Edi Cardoso
– atriz -Pós Graduanda em Fisioterapia na Saúde da Mulher pela Ufscar e em Dança e Consciência Corporal pela Universidade Estácio de Sá. Cursando Método GDS de Cadeias Musculares e Articulares pela APGDS Brasil, Fisioterapeuta formada pelo Centro Universitário São Camilo, formação como atriz pela Escola Livre de Teatro de Santo André Integrante da Companhia do Miolo, cia de teatro de rua da cidade de São Paulo desde 2005, como atriz e arte educadora. Desde 2014 integra o…AVOA! núcleo artístico como criadora e interprete em dança.

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