Ensaio Crítico sobre: “Labirinto Selvático”

por Flávio Marin

A Cia. Rosas Periféricas apresentou no II FELT, o espetáculo “Labirinto Selvático”, o último da trilogia “Parque São Rafael”. Não assisti “Narrativas Submersas” e “Lembranças do Quase Agora”. A força do trabalho “Labirinto Selvático”, me provocou uma curiosidade aos trabalhos anteriores da Cia., existente desde 2008.

Saio da apresentação com esperança, mesmo diante do abismo em que vivemos em nosso país, com Temer, STF e toda essa corja.

A Cia. Rosas Periféricas prova que o teatro pode criar um diálogo rico e muito importante para entendermos nosso passado, e a luta para um presente e futuro mais digno.

O ponto central da trama é a explosão no Complexo Petroquímico na divisa de três cidades: Santo André, Mauá e São Paulo – onde fica o bairro “Parque São Rafael”.

Partindo do principio de que trabalham – “em torno dos temas como: a reforma agrária, a luta pela terra e a organização das sociedades matriarcais” – assim, a Cia nesta peça, faz uma costura de textos e estórias de mulheres que são conhecidas por suas lutas históricas contra o machismo e racismo da sociedade brasileira. Sendo elas:

Carolina Maria de Jesus é considerada uma das primeiras e das mais importantes escritoras negras do país.

Luiza Mahin foi uma escrava que liderou na Rebelião Malê, ocorrida em Salvador em 1835.

Nise da Silveira atuou como médica psiquiatra, contrária a tratamentos agressivos, como eletrochoque, lobotomia e outros. Propunha um tratamento humanizado que usava arte para reabilitar os pacientes.

Nísia Floresta foi uma escritora pioneira feminista brasileira do século XIX.

Dandara era esposa de Zumbi dos Palmares, mãe de três filhos, uma guerreira negra que se suicidou depois de ser presa em 1694, para não retornar a condição de escrava.

A junção desta pesquisa com os relatos das moradoras do bairro revela o lado documental da trama-épica.

As imagens da explosão refletindo nos capacetes do Coro, população da comunidade, como uma chuva de fogo, provoca uma imagem de beleza repulsiva. O texto de um “desejo de futuro”, solicitado pela Deusa do Tempo a ser escrito pelo público e guardado dentro de cápsulas transparentes – similares as usadas no tráfico de cocaína – cria uma metalinguagem poética, onde há o jogo do “abismo” e da “esperança”.

Os trabalhos de opostos são muito bem estruturados dentro do jogo cênico, o drama real e o imaginário na busca de quebrar este paradigma, da desintegração.

As interpretações são potentes e diretas, olho no olho do público, não há tempo para melodramas, mas sim interpretações épicas, verdadeiras e legítimas.

A encenação é realizada numa ARENA em formato de corredor, como o TEATRO OFICINA. A quebra da quarta parede é constante, o público está no jogo cênico proposto, uma proposta épica ao estilo Brechtiano.

Os Coros são bem coesos e potentes.

A personagem da Deusa do Tempo me fez mergulhar no Candomblé e na Umbanda:
Iroko, no Candomblé é um orixá raro de nação Ketu, representa longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. No Brasil, dizse que Iroko habita a gameleira branca (árvore figueira branca) com roupas brancas, verdes ou cinzas.

Na Umbanda é a Mãe Oiá – Tempo – Logunan – Trono Feminino da Fé. Ela atua no tempo cronológico, (eras passadas, eras presentes e eras futuras). Com vestimenta azul.

Os adereços e objetos cênicos são pontuais e marcantes na encenação, a coleira de cão como cabresto para a manipulação do trabalhador, as coroas de facas tingidas de vermelho, usadas pelas mulheres para vingar um estupro cometido. Elas uivavam como lobas, Valquírias do Parque São Rafael. “Rasgou uma, rasgou todas”.

Também percebemos isso, no simbolismo das velas nas bocas dos homens enforcados. Cena instigante.

A iluminação dialoga muito bem com a encenação, assim como as projeções da explosão e dos depoimentos das mulheres moradoras. Exceto pela imagem do personagem, que representa o político comendo pipocas de micro-ondas, que a meu ver, é uma imagem desconexa.
O figurino tem alguns lapsos no diálogo com o trabalho e se torna explicativo com palavras, no macacão de apicultura do opressor. Entregando a linguagem que estava ali revelada.
A trilha é excelente e muito bem feita. Enriquecendo a encenação.

Que venham outras encenações tão ricas e potentes como “Labirinto Selvático”,
EVOÉ, “CIA ROSAS PERIFÉRICAS”!

 

Flávio Marin é diretor e produtor da Cia. Teatroendoscopia.

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