por Luís Mármora

DA URGÊNCIA DE UM TEATRO DE RISCOS. A companhia ribeirão-pretana faz jus ao nome e traz à cena um espetáculo forte, contundente, em diálogo direto com os tempos que vivemos. A ação, tem seu ponto de partida na música. O maestro, ao piano, conduz um vigoroso coro de vozes que começa a soar de dentro de um bunker no centro do palco, e não tardará sua explosão. Em plenos corpos nus, passamos a ver a qualidade de escuta dos atuadores: cúmplices no jogo da fala, no cruzamento dos corpos, na sustentação e manuseio da prisão cenográfica. O que segue é a absoluta certeza de que estamos no espaço-tempo do teatro.

No tocante à questão do gênero sexual, o campo de jogo é instaurado desde o início, quando vemos uma atriz trazer à cena as primeiras falas de Hamlet. É interessante observar a ironia fina que surge a partir deste momento, e que ganhará contornos cada vez mais nítidos no decorrer do espetáculo; e de como os corpos nus: as vaginas, os seios, os paus, tornam-se imprescindíveis, para explicitar a violência ordinária sofrida pelas mulheres. O chão é constantemente riscado entre os gêneros feminino e masculino. Imerso nos privilégios que o cercam e até o definem, Hamlet, após intensa batalha com o feminino, numa confusão propositada entre Gertrudes e Ofélia, afirma querer comer o coração de Ofélia. Quando esta lhe pede que confirme o que ele acabou de dizer, Hamlet responde: “eu quero ser uma mulher”. Será esbofeteado pelas atrizes, até desistir do seu intento.

É imprescindível fazer calar a boca dominante, a fim de ouvir o grito das minorias. Ofélia se nos mostra agigantada no alto do bunker, a dizer: “Eu sou Ofélia. Aquela que o rio não conservou (…) Ontem deixei de me matar”. Até aí, o tratamento da cena é similar às anteriores, mas seus desdobramentos são surpreendentes. O primeiro deles é quando um  dos atores pactua com a plateia: “a partir de agora, quero que vocês todos me chamem de Ofélia”. Ele, acompanhado dos demais, com os paus escondidos entre as pernas pelas mulheres, oferece-nos o primeiro texto alheio à obra de Müller. O que segue é uma espécie de “Manifesto Trans”, muito breve e simples, que esclarece a naturalidade do “Direito à Transformação”, através da associação bem-humorada com o milho que, naturalmente, se transforma em pipoca. O outro desdobramento, restitui o lugar de fala das mulheres, e através de um duplo de Ofélias, o texto baseado em estatísticas da misoginia comportamental  brasileira, mostra que o buraco é bem mais embaixo. As porcentagens são assustadoras, e ao gritar sua fúria diante delas, Ofélia não tarda a ser chamada de “feminazi” pelo coro masculino, ao que responde com a obviedade da mais ausente correlação entre o feminismo do século XXI e o nazismo alemão.

O momento seguinte, provocou-me um incômodo talvez indizível, originado,  pela minha incompreensão das sobreposições escolhidas. “Eu não sou Hamlet” diz um black-block – personagem da linhagem dos Baader-Meinhof – identificado pelo capuz a esconder o rosto. O coro divide-se: enquanto dois alternam a fala no mesmo jogo anterior de repetições, os outros, entram e saem várias vezes, pixando e grafitando o muro/bunker. Contudo, sua ação é enfraquecida. Minha impressão inicial, foi a de que havia ocorrido um cansaço do coro, que até então seguia inabalável. Além dos black-blocks, um ator em primeiro plano, com o rosto deformado por um alargador de boca, desenvolve uma sequência de poses estanques, ritmadas pela batuta do maestro, sem se relacionar diretamente com o contexto da cena apresentada. Porém, ao revelar-se o interior do bunker, é este sujeito quem vemos multiplicado num coro boquiaberto em sorriso forçoso, e que, em uníssono, passa a executar a coreografia de poses estanques. A cena volta a ganhar força ainda que um tanto difusa. Acabei por ler este coro como a classe média diante da televisão ou de outros portais de alienação, consumindo jornalismo mentiroso. Refém da própria ignorância, diante da artificialidade da notícia programada. Deste contexto nasce sua “melancolia de classe”. A consciência dos próprios privilégios, e o nojo e o desprezo que sente por tudo que escapa aos seus limites de preservação, acabarão por fazê-lo trancar-se, convicto, em sua jaula.

A cena seguinte, ao microfone, inspirada nas reflexões de Paulo Arantes, redimensiona a problemática: “O Estado é a rua. Nós somos a rua”. Por outro lado, tornamo-nos indivíduos plenamente governados. Controlados na nossa condição de capital humano. Democracia? Não existe. Vivemos em “Pacificação Permanente”. É o fim. Está tudo acabado. Ofélia-Electra evoca a destruição do mundo que, por infelicidade, pariu, e afirma: Abaixo a alegria da submissão!

Grata experiência de conhecer a Companhia Teatro de Riscos através de uma montagem tão potente. A qualidade da troca entre o grupo e os artistas Carlos Canhameiro e Daniel González (Les Commedians Tropicales) é algo precioso. A entrega de cada um dos artistas, está estampada em toda obra teatral. Aos sacerdotes de Dioniso: EVOÉ!

São Paulo, 14 de julho de 2017.


Luís Mármora
é ator, diretor e produtor cultural. Formado pela Escola de Arte Dramática EAD/ECA/USP, foi um dos fundadores da Cia. São Jorge de Variedades, onde trabalhou por dez anos, atuando em 3 espetáculos e assinando a direção de As Bastianas de Gero Camilo (indicado ao Prêmio Shell 2003). Como produtor independente, concebeu os espetáculos Gardênia – 2009 e O Meu Lado Homem, Um Cabaré D’Escárnio 2015. Em 2010, O Idiota, Uma Novela Teatral, de Fiódor Dostoiévski, direção de Cibele Forjaz, e em 2012, Pais e Filhos de Ivan Turguêniev, direção do russo Adolf Shapiro (diretor do TAM por 15 anos), ambos com a Mundana Companhia. No início de 2014 filmou, na cidade de Moscou, o longa “Vermelho Russo”, do diretor Charly Braun, atualmente em cartaz, com excelente aceitação de público e crítica. Nos anos de 2015 e 2016 atuou na montagem de Galileu Galilei com Denise Fraga e direção de Cibele Forjaz. O texto de Bertolt Brecht,  foi visto por mais de 130.000 pessoas em grande circulação nacional. Atuou em pedagogia por onze anos, em projetos como: Teatro Vocacional (SMC/SP), Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT, e como diretor convidado na Escola de Arte Dramática – EAD/ECA/USP em 2010.

 

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