Mulheres: no ringue diário da emancipação

por Roberta Marcolin Garcia

Tramarias inicia seu rito-político-poético, sua denúncia, de forma descontraída. As atrizes recebem as pessoas e indicam os lugares para sentar. Quando todo mundo entrou no anfiteatro do Cras Alzira Franco, na tarde do dia 5 de julho de 2017, dentro da programação do 2º FELT, o coletivo As Trapeiras divide-se no espaço do anfiteatro e dão os três toques para iniciar a peça usando uma panela, um balde e colheres. Assim fazem menção ao universo que será retratado na peça, o espaço da casa, do lar, porém ao usar panela, balde e colheres numa função diversa da que comumente são utilizados As Trapeiras solicitam do público um olhar atento para o que se vê. Desde o início de Tramarias vemos em cena, em estado de jogo, três atrizes aterradas, numa sintonia fina que dá gosto de ver. As atrizes Ivy Mari Mikami, Jéssica Duran e Sabrina Motta revezam-se no decorrer do espetáculo por diversas personagens e conseguem dar novos contornos a cada uma delas. As Trapeiras cantam, dançam, chamam o público à reflexão, a todo momento, organizam a cena e seus elementos… Estão completamente à vontade nas diversas funções que executam e sabem porque fazem cada gesto. E assim temos teatro de grupo, de pesquisa, teatro feito e pensado por mulheres, com propósito para além dele mesmo… E isso é bonito e forte de ver, afinal vivemos em tempos em que a mulher ainda é subjugada. O espetáculo é dinâmico, mas tem pausas que são presentes para nossa sensação, permitem-nos viajar por outros tempos, espaços, realidades.

Uma atriz destaca-se do coro e diz “Eu tenho tido vários nomes, não importa como vocês me chamem, Rosa, Maria, Olga, Anastácia…” assim, a narradora faz um chamado para que todos na plateia prestem atenção às suas próprias histórias. Desta forma, o grupo aproxima o que será narrado na peça da vida de cada pessoa do público. Iniciam um canto que nos remete a algo de outro tempo, um canto que resgata a voz de mulheres, aquelas de outros tempos, nossas ancestrais e assim encontramos as mulheres de hoje, tantas de nós. Por falar em canto, vale destacar o potente trabalho de voz das atrizes, porque alí naquele auditório (que poderia ser um lugar inóspito para receber uma apresentação teatral) aconteceu uma transformação, a primeira vez que elas cantaram… Aquela sala não era só o Cras Alzira Franco, nossa imaginação leva-nos a outros  lugares, descampados, serras, rios, lavouras, fábricas… Lugares onde mulheres constroem mundos criativamente, onde trabalham, onde são felizes, onde lutam pelo que querem. Foi um momento delicado e valioso para sensibilizar a percepção para a história que se desenrolaria perante nós. De mãos dadas, as atrizes gritam “A-ho”, uma espécie de grito de guerra, uma união de mulheres, o que podemos talvez entender como sororidade. E assim, deram início à história a ser contada naquela tarde.

As atrizes, mulheres, contadoras de histórias, tiram de seus bolsos o ato de fiar juntas… Uma retira um rolo de fio de linha que é estendido pelas mãos das três, ela desenrola o fio continuamente, outra tece algo entre seus dedos e a terceira com uma grande tesoura faz alusão ao corte, e assim, corporificam a imagem mítica das moiras, das fiandeiras, das três mulheres que fabricam, tecem e cortam o fio da vida. E enquanto desenvolvem esta ação dizem para o público que contarão-tecerão a história de mulher conhecida, a Maria, e nesse momento, o grupo insere o fio condutor da trama, o conto “A Moça Tecelã” de Marina Colassanti, revisitado – com vistas aos tempos e conflitos de hoje – pelas atrizes no intuito de retratar o que é objetivo de denúncia da peça: a violência doméstica contra a mulher. Em linhas gerais, a adaptação do grupo conta a história de Maria que se trata de uma tecelã que tinha dom mágico, tudo o que ela necessitava, ela tecia, e o que fora tecido tornava-se realidade, assim nada lhe faltava. Porém um dia, sentido-se sozinha ela resolve tecer um marido (e aqui o grupo utiliza o recurso de aproximação do público, perguntando às mulheres e aos homens “qual a característica que não pode faltar, ao marido, ao príncipe encatado, ao homem ideal?” Ao responderem os risos são inevitáveis, pois vai construindo-se um ideal de beleza que nos parece às vezes impossível de alcançar). Na trama contada, o marido, tecido por Maria, ao compreender que o tear da mulher tinha poderes, começa a sugerir e ordenar que a mulher tecesse determinadas coisas, uma casa maior, bens materiais, um castelo, até o momento ápice em que o marido pede à mulher para ela tecer uma coroa para ele usar, ao que o homem remenda dizendo “Para todo mundo saber quem é que manda aqui!”. Nesse ponto, há uma suspensão e a mulher diz “Não”. Assim, o “Não”, a primeira afronta de Maria, detona a briga, a luta entre o homem e a mulher, entre o rosa e o azul, a luta do macho contra a fêmea, como diz uma das atrizes.

Essa luta será travada em um ringue que é montado de forma teatral, duas pessoas do público seguram as cordas e começa o primeiro round. Logo de cara, a mulher apanha brutalmente e isso é pesado de ver. Porém, como o coletivo usa elementos de esquetes circenses para criar a luta, o público cai na gargalhada, mas aos poucos, a cada golpe que Maria leva, o riso vai dando lugar à indignação, ao incômodo, tanto é que algumas pessoas do público, no geral as mulheres presentes, gritavam pelo nome de Maria, para que ela reagisse “Levanta , Maria!”. E essa reação foi bem interessante. Porque o teatro pode mobilizar, indignar, fazer o sangue ferver. A estrutura das lutas: Maria apanha muito, aprende a bater, ou melhor, aprende a se defender, e surpreendentemente ela vence o 1º round. Apanha, bate, esquiva-se, apanha e perde o 2º round. Apanha, bate, apanha, bate, sente a dor, defende-se no 3º round e, por fim, Maria vence. Essa sequência de cenas leva-nos a perceber um processo de emancipação da mulher em que ela deve querer sair da situação de violência e organizar-se para tal ação, para o empoderamento. Porém no final do 3º round, quando Maria está comemorando com o público sua inusitada vitória o marido a golpeia pelas costas, ao ponto dela não conseguir se levantar. E assim, vemos diante de nós a terrível e diária violência contra a mulher, que não permite ela defender-se, em todos os âmbitos sociais. As atrizes retomam os papéis de narradoras-moiras e contam que depois disso o marido trancou Maria numa torre de seu castelo e foi à cidade buscar um remédio para o mau que ela tinha: a preguiça. Ao retornar, o marido numa discussão com a mulher, que pedia a ele para deixá-la sozinha um pouco, aponta uma arma para a própria mulher. Nesse ponto, a atriz-coringa para a cena e apresenta uma proposta de jogo com a plateia para decidir o desfecho final daquela situação de violência extrema, aqui o grupo utiliza elementos do teatro do oprimido, de Augusto Boal, o teatro fórum, de maneira apropriada, e, assim, pede ao público a solução daquele impasse. Nesse momento, foi instigante, divertido, ver como essa proposta, do teatro-fórum, é extremamente atual e como torna-se uma ferramenta importante para a reflexão de assuntos que precisam ser discutidos e resolvidos na esfera coletiva de nossa sociedade. O público ativou uma cumplicidade diferenciada com o espetáculo. As soluções apontadas pelas mulheres e homens que se dispuseram a falar e atuar nos fazem refletir… Algumas das soluções propostas optavam por resolver no “olho por olho, dente por dente”, a primeira proposta gritada pelo público no fervor da situação foi “mata ele”, “coloca veneno na comida”… Diziam isso e riam, expurgando parte do nervoso, do terror do que acabaram de ver. Outras propostam mostraram ingenuidade “Maria deve fugir pela janela” proposta que ao ser realizada logo foi descartada, por perceberem que essa solução, na vida real, não seria uma solução. E, por fim, uma proposta que também espantou, a última improvisão. Uma mulher jovem, deveria ter em torno dos 26 anos, estava com sua filha no colo, a criança deveria ter em torno de 3 ou 4 anos. A jovem mãe que improvisou, a princípio, deu uma solução que seria enganar o marido continuamente. Dava a impressão de que ela deveria encontrar, a cada amanhecer, formas de agradar o marido para não levar um tiro. E isso parece-nos um terror, apesar de ser tratado com leveza e até riso da moça que improvisava. Na improvisação, a mulher falava “Não, marido, fica tranquilo, eu vou fazer tudo que você está me pedindo agora, vou passar a madrugada acordada, organizar tudinho”, porém, ele ainda não satisfeito, ela propunha mais agrados, “vou te fazer aquela massagem, a comidinha que você adora e depois ainda tem oh (fez um gesto referindo-se ao ato sexual)”, no que o público caiu no riso. Enfim, essa improvisação foi angustiante porque é como se a mulher não pudesse fugir à fatalidade de ser violentada. Deveria viver sempre agradando o marido e triste é sabermos quantas mulheres fazem isso diariamente sufocando a si mesmas, esmagando seus sonhos. No decorrer, as atrizes teciam comentários para instigar a improvisação ter outro tipo de desfecho que não o eterno “colocar panos quentes”. E assim a jovem mãe improvisou uma outra saída, fugir de casa enquanto o marido estava fora. No caso, a atriz que representava o marido chegou no momento em que Maria fugia, ela disse que estava indo apenas passear. O marido a levou para dentro de casa novamente. Assim, a improvisação final permitiu a Maria não levar um tiro, porém o problema com o marido não foi resolvido. Assim, saímos de Tramarias com uma sensação de que há tanto por fazer. Uma angústia grita no peito perante essa situação de violência contra a mulher, que poucas vezes aparecem nos noticiários, mas estão presentes no dia a dia de tantas e tantas mulheres. As atrizes finalizam a peça com um chamado, para que as mulheres libertem seu estado selvagem. Para que não aceitam situações de violência como a vivida por Maria. Em seguida cantam uma música com melodia delicada e em seu texto diz “Se queres atirar atira, que eu também sei atirar, que eu também sei atirar… Se queres atirar atira, que eu também me atirarei, que eu também me atirarei…” enquanto cantam limpam as marcas de agressão. Uma bacia, água, pedaços de pano. Limpam a si próprias. Maria limpa Maria que limpa Maria de toda dor e sofrimento. Limpam umas às outras, cuidam-se, e esse momento é bonito. Porque vislumbramos um possível caminho para parte da solução (que acreditamos ser uma das partes mais importantes), que envolve a violência contra a mulher, a resolução vinda da sororidade, a união das mulheres para vencer a violência. O ato de limpeza das marcas de violência parece um grito feminino para que as mulheres organizem-se de forma coletiva. A emancipação da mulher numa compreensão e dimensão coletivas. Nesse sentido, o gesto das atrizes, nesse momento, de limpar-se na coletividade, o elemento da água, ganha força e potência. Mas há um ruído porque a letra da música que elas cantam, por focar no ato de revidar e apontar para um conflito de ordem individual, apesar de ser cantado em coro, “Se queres atirar atira, que eu também sei atirar”, de embate, parece que essa ação, verdadeiramente não resolverá a questão de forma coletiva. A letra da música permanece na compreensão do momento da luta do ringue, o momento em que a mulher precisa aprender a revidar, no cara a cara. Sabemos que, em determinadas situações, como a exposta pelo grupo, na cena em que o marido bate, ou quer atirar na mulher, o revide torna-se a única saída. Mas para finalizar o espetáculo, e como mensagem final para uma possível resolução comum do problema abordado, o potente ficou por conta do gesto de limparem-se juntas, do olhar uma para outra, na união das mulheres, na compreensão de que o problema é de ordem social… E que só unidas, pensando e propondo ações coletivas, poderão vencer esse fato que nos assola enquanto mulheres, a violência em todas as suas esferas, da casa, do trabalho, física ou psicológica.

Assim como abriram o rito-político-poético unidas, de mãos dadas, finalizam da mesma forma, com um forte e coletivo “A-ho” vindo de dentro delas, atrizes, mulheres. E isso é bonito e toca nosso sagrado, instiga nossa sabedoria coletiva de viver e resolver nossos maiores dilemas sem temer.


Roberta Marcolin Garcia

 

Dona de casa. Mãe. Formada na E.E.P.S.G.Padre Aristides Greve em Santo André, onde teve muitas aulas vagas de todas as matérias. Aos treze anos, começou a trabalhar com distribuição de panfletos em portas de universidades, escolas, faróis de grandes avenidas. Foi garçonete em Santo André e São Caetano do Sul. Foi muambeira. Como atriz, trabalhou como palhaça, contadora de histórias, mímica, recreadora. Teve relevante experiência com personagens diversas (destaque para as fantasias de pelúcia da turma do Pokemón, Teletubbies, Power Rangers, As Meninas Superpoderosas, bruxa, princesa, investigador, etc) em aniversários infantis, eventos tantos,  em portas de grandes corporações nacionais e multi-nacionais, escolas de línguas estrangeiras. Contou histórias para meninas e jovens em situação de privação de liberdade, a maioria meninas-moças negras e pobres. Na sala de aula da sua escola, da 6ª série em diante, vendeu salgadinhos, bolos e lanches (15 anos de experiência). Tem medo de andar sozinha pelas ruas à noite. Seu grupo de teatro, Pontos de Fiandeiras, tem como um dos focos de sua pesquisa a questão da mulher em nossa sociedade. Sua maior fonte de inspiração é sua mãe, Dona Líbera, aposentada, cabeleleira, dona de casa, contadora de histórias nata, e tantas outras mulheres que a acompanham na caminhada.

 

 

 

 

 

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