Apreciação Crítica de  “Um é Outro: ensaio sobre fronteiras” por Adélia Nicolete

por Adélia Nicolete

Prólogo

 Teatro Municipal de Santo André. Os espectadores e as espectadoras são convidades a entrar e a ocupar as poltronas, de preferência as centrais, de modo a ficarem bem próximes. Fronteiras físicas indefinidas.

Parte do elenco e dos técnicos está no palco, à vista de todes. Ao som de uma música oriental, outres atores e atrizes recebem o público embaixo, na plateia. Cumprimentam, sorriem. Fronteiras cênicas diluídas.

Ao terceiro inexistente sinal, elenco sobe e faz aquecimento silencioso: em círculo, intérpretes revezam-se para a troca de energia. Em seguida, dispõem-se lado a lado, de frente para a plateia e sincronizam a respiração. Quase sem perceber, respiramos no mesmo ritmo. Fronteiras anímicas dissolvidas.

No escuro, atores e atrizes descem do palco e se espalham pelo público. Sussuram, alternadamente, um texto – difícil definir o que seja. Na cumplicidade do não-sabido, dividimos o mesmo organismo. É isso. O teatro agora é um imenso útero no ventre da cidade.

 “Eu é Outro: ensaio sobre fronteiras”

Quando da análise do teatro, é sempre bom começar pelo título, recomenda Jean-Pierre Ryngaert. Ele pode desorientar (e muitas vezes o faz propositadamente), mas pode muito bem fornecer uma chave de entendimento. É esse o caso de “Eu é Outro: ensaio sobre fronteiras”, espetáculo que encerrou de modo auspicioso o II Festival Livre de Teatro de Santo André.

A par das implicações teatrais do termo, “ensaio” pressupõe, segundo o dicionário Houaiss, “ação ou efeito de testar (algo) ou de agir, sem que se tenha certeza do resultado final; tentativa, experiência”. Ao apreciarmos o trabalho do Coletivo Coato sob esse prisma e não sob o (pre)conceito de espetáculo perfeitamente formatado, abrimos uma outra e mais ampla esfera de análise e, consequentemente, de fruição.

A maior parte do tempo temos a impressão de acompanhar uma série de experimentações cênicas, tal como ocorrem em sala de aula ou de criação – o despojamento do grupo, seja no modo de se vestir ou de se relacionar conosco, é uma das provas mais contundentes. Não há preocupação em ocultar operadores de som e luz, por exemplo, nem de disfarçar a contrarregragem ou as quebras de cena. A certa altura, o elenco nos expõe seus propósitos e descreve parte do processo criativo com a desenvoltura de um bate-papo, de um breve intervalo em meio aos testes de seu laboratório.

Outra importante pista nos é dada pelo programa do espetáculo e reforça a ideia de campo de experimento. Marcus Lobo não é um simples diretor, mas um Encenador/Provocador. Gláucio Machado é um Orientador. Há também uma Preparação Telemática, a cargo de Ivani Santana e a tessitura das ações, como queria Eugênio Barba, recebe o nome de Tramaturgia, da qual se desincumbiram cinco agentes. Por último, mas não por fim, não há intérpretes, mas co-criadores, posto que a obra foi/é elaborada de modo compartilhado.

Temos, portanto, não somente uma proposta de espetáculo-ensaio, mas de uma dinâmica outra de produção, reforçada pelo fato do grupo ter se dividido em dois estados diferentes e operado, por algum tempo, de forma virtual. Todos esses fatores são determinantes para a resultante estética de “Eu é Outro: ensaio sobre fronteiras”.

Em outras palavras, o que vemos (e o que nos olha) não foi buscado, mas encontrado a partir do desejo e dos meios para concretizá-lo: ao pretender uma pesquisa sobre fronteiras subjetivas e objetivas, o Coletivo Coato põe-se ele também em estado de experimentação. Assim, a cada sessão, há de se relacionar com noves espectadores, filmá-les à entrada do espaço, agregar um intérprete estrangeire e assim por diante. Em suma, há de se testar permanentemente os limites do próprio trabalho.

Pela somatória desses e de outros fatores, a forma resultante é a da fragmentação, da polifonia e da polissemia. Embora o tema enfeixe de certo modo as cenas dando-lhes uma impressão de todo, é no mergulho em cada situação/território que a experiência se aprofunda – tanto que cada fragmento é quase um micro-espetáculo, faz sentido por si mesmo. Espécie de sequência de workshops em que o elenco explorou determinadas questões e investigou determinados recursos.

Na medida em que recorre a outras fontes que não só o texto verbal como centro irradiador de sentido, o grupo nos estimula a mais do que pensar, presenciar a questão central das fronteiras. É nessa esfera que concorrem as projeções de vídeo gravadas, outras em tempo real, bem como das que contam com imagens do público ao atravessar as fronteiras da sala de espetáculos.

As quatro telas móveis, elas mesmas barreiras a se abrir, fechar e recompor até o cerco final, são tanto o suporte para as projeções de vídeo e de sombras quanto dispositivo a promover fronteiras de tempo quando dos saltos das personagens para as imagens de experiências passadas.

Outro campo de teste é a interpretação. O desprendimento em algumas cenas é substituído pelo rigor coreográfico, mais tarde pela interpretação de um texto ou pelo depoimento pessoal, pela brincadeira, logo adiante pela performatividade individual ou aliada à tecnologia. Tais movimentos conferem ao conjunto uma ideia de variedade discursiva supreendente.

Tantos aspectos ainda por abordar, saliento por fim a luz como mais um elemento fundamental para a produção de sentido, não só por possibilitar os efeitos já mencionados, mas por estabelecer ou quebrar os limites da cena a fim de integrar ou segregar o público, de torná-lo cúmplice ou mero espectador do acontecimento cênico.

Ensaio de uma conclusão

Com maior intensidade a partir dos anos 1980, a Universidade tem sido o berço de um grande número de grupos teatrais. Ali, estudantes de Artes Cênicas encontram espaço, referências, orientação e, principalmente, encontram seus pares: professores ou colegas com as mesmas afinidades e desejos de pesquisa. Formades, apostam na continuidade da investigação e também na estrada a colocá-les  em contato com outros públicos, outres profissionais e coletivos para que, nesse intercâmbio, possam testar a potência de seu trabalho, afetar e serem afetades. Afinal, é nesse misto de afeição e fricção que o teatro se desenvolve.

O Coletivo Coato é um desses grupos egressos da Universidade, no caso, a Federal da Bahia. A influência daquele espaço de experimentação pode ser percebida em alguns dispositivos tais como pesquisa de linguagem, criação compartilhada e corpo performativo; hibridização, composição via colagem/montagem para além da forma dramática, bem como despreocupação com a busca de um todo esteticamente perfeito ou facilmente apreensível. A experimentação e a ousadia, enfim, tem sido algumas das assinaturas desses grupos.

Desejo, pois, vida longa ao Coato para que possa aprofundar e sedimentar algumas de suas investigações formais, alargar as fronteiras de seu trabalho e do Teatro.

Adélia Nicolete é mestre e doutora em Artes pela ECA-USP, dramaturga, escritora e professora.

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