Apreciação Crítica de “Sambada de Reis” por Felipe de Menezes

Sambada de Reis – um BRINDE AO CORPO QUE FESTEJA!

por Felipe de Menezes

Começo pelo fim. Ao sair do Parque Antônio Pezzolo – Chácara Pignatari me encontro com um espectador também recém-saído de uma festa, que no tempo de um semáforo fechado, me conta das aulas de dança que vinha fazendo recentemente. Reconheci seu corpo: era o que bailava há poucos minutos atrás dentro do parque. Participamos juntos de um festejo popular da mais alta significância. Seu corpo, de meia idade, ainda meneava, contrastando com o restante dos corpos dóceis a nossa volta. Sua alegria e desejo de trazer ao verbo a experiência vivida era também de uma beleza singular. O semáforo abriu e ele seguiu rumo ao seu trabalho.

Cerca de uma hora e meia antes, ao chegar no parque, via mães com bebês no colo, crianças, adolescentes e cachorros que, aos poucos, foram percebendo uma movimentação diferente em frente a Escola Livre de Cinema de Santo André. Entre cores, batuques, danças e cantorias, surgiam os que iam entrar em estado de atuação: o Grupo Manjarra, de São Paulo, se apresentava naquela fria tarde de 12 de julho de 2017, com o seu espetáculo “Sambada de Reis”, no 2º FELT (Festival Livre de Teatro), da Escola Livre de Teatro.

Após o cortejo e, ao longo da festa popular de natureza representacional, fomos apresentados aos atuadores e suas brincadeiras, às mascaras e suas danças. Tudo no espetáculo nos cheirava familiar, como se já conhecêssemos aquelas alegorias em algum lugar da nossa memória. Nossos corpos, às vezes, parecem nos trazer a lembrança de algum outro tempo-espaço, de algum outro vivido que os nossos olhos, a princípio, insistem em reconhecer como sendo pertencente à ancestralidade de nossa comunidade. Da chegança à terminança, a vivência que os brincantes (ou brincadores) inseriram, nos acessava de modo particular à ludicidade e à ideia de celebração com o público, pulsão de vida, em última análise.

Entre símbolos e arquéticos o Grupo Manjarra em seus doze anos de chão, traz à cena, nesse espetáculo-celebração estórias e peripécias de figuras folclóricas ora apresentados como grandes bonecos ora como máscaras no quintal do Capitão Marinho. Em meio a isso, muitos cantos e danças.

Surgido como um grupo de estudo da conceituada Mundu Rodá, o Grupo Manjarra iniciou suas empreitadas artísticas já sabendo o que queria: a busca por uma identidade artística calcada nas vivências com o Cavalo Marinho pernambucano e outras culturas que foram sendo aprendidas e incorporadas ao estudo do coletivo.

Alício Amaral e Juliana Pardo nos brindam com um espetáculo de elevada potência poética e deslumbre estético. Em seu conjunto, o corpo e a voz de artistas que sabem o tamanho da responsabilidade de levar o nome dos mestres Inácio Lucindo e Aguinaldo da Silva. A cultura popular – aquela nascida do culto, do rito e da festa – fez pouso (como a bandeira do Divino) numa cidade marcada por fumaça, sirenes e pressa. E, num átomo de tempo, pudemos nos deleitar com os risos e esquecer das dores da vida vivida lá fora.

Ao me deparar com esses brincantes e seu estado de representação, pude constatar uma necessidade urgente do teatro no que se refere à formação do ator. É preciso que atuador, intérprete ou ator busque em sua formação as matrizes da cultura popular, nos corpos dançantes, nas brincadeiras regionais – uma vez que as nossas escolas de formação ainda mantém uma tradição enraizada no modelo russo e alemão -, quando não, francês. Repensar a formação do ator brasileiro nos fará, sem sombras de dúvidas, abrir mão de modelos preestabelecidos e abrir espaço, em profundo diálogo, com o que é verdadeiramente nosso. Teremos que olhar não só para trás, mas para dentro. Redescobrir, em nós, trabalhadores da cena, um treinamento que valorize a corporeidade brasileira, a cantoria brasileira e, dialogue verdadeiramente com o nosso público.

A morte e ressureição do boi ao final do espetáculo vem para nos dizer, dentre tantas cousas possíveis, que é preciso fazer renascer, em nós, a capacidade de louvar nosso chão, recuperar a confiança e agir – mesmo que os tempos sombrios de hoje sejam de golpes e massacres na cultura enquanto políticas públicas.

É, portanto, preciso dar as mãos e, numa grande voz, fazer valer as nossas identidades culturais tão diversas e múltiplas – sem perder esse dispositivo de libertação que a arte nos traz – como aquele senhor que, no caminho de volta para a casa, confirmou o quanto foi bom se embalar aos sons, aos movimentos e as cores daquele folguedo.

Viva o boi!

Viva o grupo Manjarra!

Viva Mestre Inácio Lucindo e Mestre Aguinaldo da Silva!

Viva os festejos populares!

E Viva a Escola Livre de Teatro (em seus 27 anos!) – que muito me honrou com o convite. A possiblidade de um olhar caipira sobre a cena paulistana muito enriquece a todxs.

 

 

Felipe de Menezes é nascido na cidade de Piracicaba, interior do estado de São Paulo. É diretor, iluminador e professor de teatro. Fundou em 1999 o Grupo Forfé de Teatro, na cidade de Piracicaba. Cursou Direção Teatral na SP Escola de Teatro e no Conservatório de Tatuí. Cursou Letras na Universidade Metodista de Piracicaba e, posteriormente, Linguística na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Integrou o Núcleo de Estudos do Teatro Contemporâneo da Escola Livre de Teatro onde cursou Crítica Teatral. Foi monitor do Projeto Ademar Guerra atendendo grupos vocacionados de teatro em cidades do interior paulista. Ao longo dos anos, ministrou diversos cursos, oficinas e workshops nas áreas de direção cênica e atuação épica. Foi membro titular do Conselho Municipal de Cultura do Município de Piracicaba. Foi presidente da Apite! (Associação Piracicabana de Teatro de Piracicaba) e um dos criadores do Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba,) no ano de 2006. Atualmente conclui a sua graduação em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), onde desenvolve a pesquisa sobre a “Metodologia comparada do ensino de ‘história do teatro’ nas escolas técnicas de formação de atores da cidade de São Paulo”. É professor desde 2009 do Teatro Escola Macunaína, na capital paulista. No ano de 2016, realizou uma pesquisa histórica e a publicação de um livro cujo conteúdo cultural é sobre a “História e a Memória do Teatro em Piracicaba: das monções aos dias atuais”. O livro foi lançado em dezembro de 2016 no Sesc Piracicaba.

 

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