por Renata Moré

Recebi o convite para escrever a apreciação crítica do espetáculo de mamulengo “Exemplos de Bastião” com muita felicidade e, ao mesmo tempo em que fiquei entusiasmada com o convite, fiquei também um pouco angustiada, pois de mamulengo não sei nada. Andei quase nada pelas trilhas da cultura popular brasileira e do teatro de bonecos, apesar de terem sido as poucas experiências, sempre na condição de público, muito intensas, cheias de vida. A indicação para a escrita do texto, tão generosa, era de que escrevesse sobre o encontro de minha experiência com o espetáculo. Minha experiência é tão fluida e no caso do Teatro de Mamulengos, nada específica: com qual Renata “Exemplos de Bastião” vai se conectar?

O Grupo de Teatro Mamulengos Sem Fronteiras é do Distrito Federal e se reuniu há 21 anos atrás para pesquisar a tradição das brincadeiras populares, sendo o Mamulengo, o seu brinquedo principal. O espetáculo tem quase a mesma idade e já foi apresentado em circuitos e festivais pelo Brasil, América do Sul e Europa, com maior troca em Portugal. Acompanhando a tradição do teatro de mamulengos no Brasil, “Exemplos de Bastião” tem em sua estrutura um trio de instrumentistas e um ator que manipula diversos bonecos de vara e de luva, dentro de uma caixa de madeira com abertura de boca de cena, para contar a história do casamento do Palhaço Bastião com Rosinha do Bole Bole.

Lendo um pouco para me organizar depois para a escrita fiquei com alguns pontos importantes do Teatro de Mamulengos no Brasil. Um desses pontos é sobre ele, sendo a forma de teatro de bonecos nordestina, representar uma forma de resistência da cultura popular, frente à aculturação imposta pelo capital, quando não é ela própria cooptada pelo turismo comercialmente, forma esta criticada por diversos mamulengueiros e que inverte seu sentido político. Outro ponto é que, além do Nordeste com a maior efervescência do teatro de mamulengos, o Distrito Federal é o segundo estado brasileiro com mais manifestações, sendo o grupo Mamulengos sem Fronteiras um dos expoentes.

Centrado no improviso e, dessa forma, com grande flexibilidade, o Teatro de Mamulengos mantém a estrutura tradicional ao mesmo tempo em que dialoga com ideias atuais, tendo grande força de transmissão política, no seu sentido educativo, no sentido de sua própria existência. Outra questão importante é que o público faz parte da brincadeira de forma bastante ativa, fazendo parte da própria construção da brincadeira que vai tomando seu destino no curso desse diálogo[1].

Com essas indicações e preocupações, assisti o espetáculo e a plateia de “Exemplos de Bastião” do Grupo Mamulengos sem Fronteiras na condição de público que sempre sou. Mesmo sendo uma trabalhadora do teatro, tento manter a disposição de encontrar com a arte, importando-me mais a conexão que se estabelece ou não, como a força fundamental.

Assim, fui chegando no Parque da Criança Palhaço Estrimilique e muitas crianças e suas famílias brincavam ali. O grupo Mamulengos sem Fronteiras e a equipe organizadora do Felt preparavam o local para receber as pessoas: um espaço coberto no meio de um parque de areia varrido com tamanha dedicação para que o público pudesse se acomodar no chão. Um dos integrantes do Grupo em posse de seu microfone e com bastante conhecimento e apreço pelo significado do Festival para a cidade, chamava a todos para que viessem participar. Quando o público se aproximou, o mesmo ator contou a todos sobre o contexto: sobre Santo André, sobre a Escola Livre de Teatro, sobre este ser o segundo Felt, sobre as dificuldades encontradas para a sobrevivência do teatro na cidade. Um ato político em sua expressão mais viva, pois parte das pessoas (aquelas que não sabiam) passaram a saber e isso já era tão grandioso. E, sobretudo, o que eu lia nessas palavras, era da felicidade de estarem ali. Perguntou então para uma criança se estava de férias e a criança respondeu que sim. O ator disse que também estava. E como é bom fazer o que se gosta! Somos privilegiados quando sabemos disso, quando entendemos o que pode ser viver, com todas as dificuldades que esse entendimento possa acarretar.

Então, o gracioso trio começou a tocar: um sanfoneiro e cantador, e outros dois instrumentistas, um com um triângulo e outro com uma zabumba. E não é que eu (e toda a plateia de adultos, pois cantavam) comecei a desconfiar que conhecia mais do que eu pensava?

“Tu que andas pelo mundo, Sabiá
Tu que tanto já voou, Sabiá
Tu que canta passarinho, Sabiá
Alivia minha dor.”

(Geraldo Azevedo)

E ali, no prólogo, eu vi da flexibilidade do Teatro de Mamulengos, pois que a condição política atual do Brasil era posta ali, de forma direta, como que da própria condição desse teatro que se posiciona, que sabe que é seu direito estar ali com as pessoas e que deve dizer a elas sobre o que se passa. Sendo um teatro centrado no improviso e direcionado aos interesses do povo a quem o assiste, o posicionamento político do espetáculo não faz uso da arte, ao contrário, é parte dela e é político enquanto existe.

Surgiu o primeiro boneco para realizar o prólogo e este boneco, o primeiro, tocava sanfona e tocava como o sanfoneiro do trio, pois tinha alma. O ator estava no boneco e assim toda a manipulação se seguiu em um jogo tão absorvente para o ator/manipulador que absorvia a todos e que gerava uma importante variação de nuances, de ritmo, de frequência na manipulação dos bonecos e no diálogo com o público.

E seguem então as apresentações e confusões do palhaço Bastião com outros bonecos que, com maestria, vão dialogando com uma plateia participativa. Trata-se menos de uma história, do acompanhamento de um fio dramático por meio do qual poderíamos ver Bastião lutar pelo amor de Rosinha. Trata-se mais de passagens, da apresentação de tipos com os quais Bastião vai interagindo em condição ora de submissão, ora de medo, de amor, de cuidado, de heroísmo, por meio de situações cotidianas com potencial de identificação pelo público. Assim, fomos apresentados a diversos bonecos que exprimem tipos sociais conhecidos daquela cultura e da nossa, se não é que é a mesma: um padre, um patrão, uma moça solteira, almas penadas e outros bichos. Assim como fomos envolvidos em jogos de silêncio e barulheira, de cuidado com o bebê, de felicidade pelo casamento e pelo batizado, de torcida pela morte da gigante cobra Anaconda.

O espetáculo chega onde parece querer chegar. Ele acessa o público. É sincero, absorve-nos e assim mantém conexão com a plateia que realiza junto ao grupo o espetáculo do início ao fim. Não me parece ser realizado, assim como também me parece não ser o caso de outras manifestações da cultura popular, para a transmissão de uma ideia ou para que se entenda uma história ou para se se faça uma reflexão propriamente dita sobre o tema do espetáculo. Mas parece ser feito para o encontro, para que se possa brincar coletivamente, para que se possa rir. E é nessa simplicidade que seu significado político é mais potente, quando o espetáculo se oferece como possibilidade de brincadeira tão viva em meio ao Parque da Criança Palhaço Estrimilique.

Eu queria mais. Eu queria mais tardes assim.

Andava escutando uma aula sobre a filosofia de Henri Bergson e fiquei pensando sobre seu conceito de percepção ou aquilo tudo que vai sendo registrado enquanto vivemos e que já é passado, ao passo que o presente está no próximo segundo da existência. E para ele também se a vida ou o acaso se conecta a uma dessas percepções que estão para sempre guardadas conosco e a desloca para o presente, é com a perspectiva de construção do agora. Tantas percepções minhas foram deslocadas pelo espetáculo que cheguei à conclusão que sabia mais do que eu sabia sobre os mamulengos e aquela minha angústia foi embora. Tantas imagens e sons estavam em mim e retornaram para brincar aquela tarde.

Se o teatro é uma forma de instigar ao questionamento, também parece ser uma forma de oferecer possibilidades de vida ou de mostrar que não há uma única, o que não deixa de ser uma questão e um posicionamento político. E, se Edgar Morin está certo ao afirmar que para ser feliz precisamos viver a vida com poesia, Mamulengos sem Fronteiras, tenho certeza, é feliz.

[1] SANTOS, Fernando Augusto Gonçalves – “Mamulengo, um povo em forma de bonecos”, MEC/FUNARTE, Rio de Janeiro, 1979.

Foto: Thaís Oliversi


Renata Moré

Tem graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e formação em ballet clássico pelo Ballet Oficina. Formou-se também por meio da participação em diversos cursos livres nos âmbitos da interpretação teatral, gestão de projetos públicos e cultura. Como gestora de projetos tem vasta experiência na administração cultural em instituições públicas e organizações sem fins lucrativos, principalmente no âmbito da formação cultural. É membro da Cia. do Nó, atua como atriz desde 1993 e como arte-educadora desde 1999, em instituições como a própria Cia., prefeituras e Sesc´s. c

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