Quero agradecer a todxs, presenciar o FELT e escrever em conjunto com Cida Almeida foi um grande momento feliz de aprendizado.

As Rinocerantas

Olá, sábado (08/07/17) fui até o bairro Jardim Marek uns quinze minutos de onde moro. No CEU Jardim Marek, Rua Engenheiro Alfredo Heitzman Júnior – s/n – Jardim Marek – Santo André – SP, lá estava o Grupo Lona de Retalhos com o espetáculo “Rinocerantas”, inspirado na obra do dramaturgo romeno Eugène Ionesco “O Rinoceronte”. Cheguei cedo e influenciado pelo clima do teatro do absurdo tive tempo de agregar. Tarde linda de inverno, céu azul e ensolarado. Pessoas dos 7 aos 35 anos soltando pipas, crianças descalças brincando de fazer bolo no campo de areia, futebol na quadra coberta com dois times esperando de fora, curso de tricô e crochê na sala multiuso, fila ansiosa na entrada do teatro esperando a hora de entrar. Muita gente, crianças, adultos, idosos, filhos, mães, pais, avós. E na entrada do teatro, entre tanta gente, vi fotógrafa, alunxs da Escola Livre de Teatro, a coordenadora pedagógica da mesma, diretor de cultura da cidade, artistas do ABCDRM. Esperávamos para assistir o espetáculo que participou do 2º Festival Livre de Teatro – FELT.

Aí desatinei : – Se “O Rinoceronte” deve ser visto como a passagem do absurdo existencial a um princípio de confiança em que vale a pena ser homem”, como disse Sábato Magaldi, não consigo imaginar melhor espetáculo  para estar ali, naquele dia, naquela programação, para a gente que estava presente. Penso que o FELT foi organizado para valorizar encontros e relações humanas. Sim, o FELT foi muito bem organizado, pensado com carinho. É descentralizado. Podia estar só no espaço da Escola Livre de Teatro e ao redor, mas esteve para toda a gente. Podia estar só no teatro municipal da cidade (Teatro Antonio Houaiss), mas esteve espalhado pela cidade em 11 locais. E quem idealizou, organizou, participa é presencial. Isso até me fez lembrar o ex-prefeito Celso Daniel nas plenárias do Orçamento Participativo em 1990. Ele percorria a cidade inteira com uma lousinha verde de 80cm x 60cm e giz, explicando como funcionava a organização do OP; prefeito presencial para coisas essenciais na vida do cidadão assim como o FELT e seus organizadores.

Enfim a porta do teatro abriu, euforia, entramos, sentamos e nos deleitamos.

Rinocerantas em seus 55 minutos conta um dia transformador na vida de Juanete e Beringela. Elas moram em um JK, tipo de apartamento que contém apenas dois cômodos, quarto-sala-cozinha-área de serviço e um banheiro, só este último é separado por parede. O dia passa com Juanete que tem um caráter organizado, disciplinado, controlador e dominante tentando mudar Beringela que tem um caráter mais tranquilo, preguiçoso, brincalhão, despojado e submisso. Tudo num quiproquó danado de bom. E sempre que Beringela cede à força de Juanete, rinocerontes aparecem andando do lado de fora pela cidade. Em certo momento elas comentam o estranhamento de pessoas estarem se transformando em rinocerontes, o que acaba acontecendo com Juanete depois de ver Beringela quebrar uma de suas estimadas xícaras de chá. A recém remodelada rinoceranta, depois de um discurso capitalista, sai em direção à sua manada deixando sozinha Beringela que, no susto e com medo da solidão, arrisca uma transformação e não consegue, pois no fundo ela não é rinoceranta e nem quer ser. A luz se apaga depois de Beringela imaginar tantas outras formas que pode tomar quando ela quiser.

Aplausos e assovios ovacionaram o encontro que acabava e eu ali no meio em pé, junto com todos, sem nenhuma dúvida sobre a beleza do que tinha acontecido. Me senti criança brincando na casa das vizinhas da frente.

E depois de brincar como criança, volto pro mundo dos adultos. Estamos vivendo uma época difícil e não temos para onde fugir, temos que nos posicionar, tomar partido e formar resistência contra uma massa de couraça cinzenta que domina através de um golpe e oprime quem tem ou quer outras cores, e formas, e vontades e sonhos.

A clareza de tudo aparece desde o início quando entramos e vemos a cenografia. O JK determina dois lados, à esquerda do público temos uma janela, um armário, uma foto de Juanete na parede junto com um cronograma das coisas que ela vai fazer, este ainda determina uma mecanização da vida, como se ela fizesse a mesma coisa todos os dias. Do outro lado à direita do público também uma janela, uma foto na parede com Berinjela e Juanete juntas, vários desenhos divertidos feitos à mão na parede, roupas e ferro de passar no chão e um banquinho.  Quando elas aparecem, percebemos qual lado pertence a cada uma. Juanete, cinza, quadrada e Berinjela colorida, redonda.

A dramaturgia recorta toda a trama de Ionesco em Berinjela e Juanete num JK. Elas representam a disputa pelo poder diante da vida de uma pessoa, no microcosmo: competição para escovar os dentes, forma inadequada de guardar roupas, o certinho é ponta com ponta dobra e guarda, roupas padronizadas são melhores, ter um guarda-roupa não deixar tudo pelo chão, não se brinca com comida, são todas ações que oprimem no dia a dia deixando a pessoa submissa sem espaço para experimentar e refletir, bagunçar e depois guardar, massificando e endurecendo a vida. A intepretação e a direção resultam numa precisão das ações que confere ao espetáculo beleza e poesia, e clareza de narrativa e discurso.

E para terminar arrisco dizer que conseguiram juntar Ionesco teatro do absurdo-existencialista com Bertolt Brecht teatro de ideologias e teses. O que parece ariscado, mas deu muito certo.

Beijos,
Esdras Domingos

 

São Paulo, 19…quase 20 de julho de 2017.

Minhas, meu, minho, mias… amoris !

Eis que resolvo escrever-lhes. Ando retomando esse velho hábito de formato de escrita em carta: quase um ensaio, quase um pensar baixo de dentro prá fora da gente, quase anotações de compartilhamento de ideias e anseios e observações!

Li seus pensamentos , querido Esdras, como quem se ouve a si próprio. Por isso tomei a ousadia de me expressar numa forma de discurso diferente do teu, que para mim dá conta muito bem da dimensão crítica do que assistimos.

Vi o belo espetáculo de vocês, essas meninas, em loco e in vídeo, como quem revisse a minha própria história de palhaçadas e o desabrochar do universo feminino dentro de um mundo tão masculinizado, branco e apartado!

Não escutem o que lhes digo escritamente como algo RINOCERÂNTICO, mas talvez um NEW ROMÂNTICO ! O que quero lhes dizer é que o meu EU se encontrou com o nosso quando lhes vi falando e carregando uma inquietação que não vem de agora. E posso dizer isso porque as acompanho já a mais de uma década, de Gordô , A Incrível Batalha e RinocerAntas, só não conheci Othelo e a Loura de Veneza,mas de certa maneira ali estava acompanhando a Sofia Papo na Oficina de Máscara Larvária, que fazia parte do projeto que ganhou o PROAC em 2015, com a Pedagogia das Máscaras como preparação. Mas os fatos, mias mininas, é que a inquietação em querer falar de temas pertinentes e esquecidos, digamos assim, para as nossas crianças e jovens estava presente o tempo todo dessa trajetória.

Coisa bonita de se ver é essa inquietação social, política, cultural sendo posta em cena por duas mulheres atrizes palhaças! Daí a minha satisfação, o meu amor e consideração. Adoro o caminho que vocês adotaram para fazer teatro político. É Brecht na veia. Palhaçar é Brechtear! Escolher clássicos do teatro do absurdo ( Becket e Ionesco) pode até parecer fácil pela proximidade do universo non sense que a linguagem da palhaçaria nos trás; mas quem dirá fazer do Brecht palhaçagem ? Vocês não dão bandeira, não são de bricadeira, SÃO A GRANDE BRINCADEIRA, por se permitirem correr riscos, por terem compreendido a relação dinâmica e viva dos AUGUSTOS e BRANCOS, por se compreenderem mulheres e entenderem pelos que a condição feminina, trazidas por RINOCERONTES que nos vê ANTAS, do melhor possível soubemos entender que nem antas e nem rinocerontes nos, nesse mundo dicotomicamente inventado, nada vai para adiante e certamente, das ANTAS TANTAS TONTAS OUTRAS, possamos permitir que os RINOS..SER partam com sua manada nos deixando em paz para construirmos um mundo de AERO…ANTAs, ANTA…GÔNICAs, F…ANTAs, ERVAS…ANTAs, AGRO…PANTAs, CICLOP…ANTAs…

Podemos até sugerir a substituição de CLOWN BRANCO para RINOSSER e o AUGUSTO para ANTA !

Muito obrigada pela história que Juanete e Beringela nos contaram Grata pela coerência do caminho escolhido e acima de tudo grata por nos colocar no topo das mais mais da palhacidade feminina e por ajudar nosso mundo a ser mais metafísico!

AH! E obrigada, creio que aqui retomo a Esdras e peço-lhe permissão para dizer o quanto concordamos e agradecemos a vocês por nos promoverem a visão na qual “O teatro de ideologias e teses”, pode ser poético, divertido e continuar nos propondo soluções políticas que tem nele, nesse Teatro, a esperança de salvar a humanidade. E isso essa meninas chamadas Carina Prestupa e Thaís Póvoa em suas altas qualidades performática vêm se transformando em duas grandes artistas palhaças !

Bete Dorgam, mestra de tantis , como diria o Mussum – e olha que até nesse negócio de escrita não sexista nos servimos poeticamente do Palhaço – sabiamente conduz esse jogo e transpõe para a cena o existencialismo poético desse maravilhosos personagens da vida cotidiana: existir já é um absurdo! E por em cena um novo tempo com suas agruras e gostosuras… é golpe de mestra!

Fiquem pois com meu amor, alegria e torcida para que esta belezura que vocês têm nos braços tenha uma longa vida !

Sim, Thaís Póvoa, é preciso falar de política e no mais digno e amplo sentido que a Filosofia nos oferece: falar das questões que envolvem as relações humanas para que possamos construir uma convivência justa, pacifica e de respeito às diferenças.

Carina, qual é mesmo o próximo desejo do que você quer falar?

Minha admiração à vocês e de quebra permita-me beija-las e abraça-las.

Evoé!

É… eu vou, né?

Cida Almeida.

Esdras Domingos

Tem formação em teatro, nas áreas de interpretação e direção. Conquistou uma ampla experiência na coordenação de núcleos de pesquisa teatral, que culminou no desenvolvimento de um método próprio de ensino/aprendizagem que vem sendo aplicado desde 1999, na Escola de Teatro da Cia. do Nó. Seu trabalho como diretor de teatro lhe rendeu vários prêmios em todo o território nacional. Como ator, trabalhou com profissionais importantes da cena teatral, como Cristiane Paoli Quito, Luis Alberto de Abreu, Márcio Aurélio, Celso Frateschi, Cacá Carvalho e Renato Borgh. Em 2015 participou  do workshop em regime de imersão “COMO PENSAR ATRAVÉS DE AÇÕES” com Eugenio Barba e Julia Varley.

Cida Almeida

Nascida em Salvador-Bahia em1962. Educadora, Atriz e Diretora formada pela ESCOLA DE ARTE DRAMÁTICA-ECA/USP e pela UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA – UNISUL, em Filosofia.
Produtora Cultural e Artista pesquisadora com foco no Intérprete Fabulador.

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Um comentário sobre “Apreciações Críticas de “Rinocerontas” por Esdras Domingos e Cida Almeida

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