Apreciação Crítica de Acalanto

Entre acalantos

Sobre a noite em que apreciei o espetáculo Acalanto, com Grupo Acalanto de Teatro (São Caetano do Sul/SP)

por Paula Venâncio

 

Talvez o teatro que eu mais goste de apreciar seja aquele que me afague a alma, que seja um acalanto estético, um fruir, fluir dos pensamentos, do meu próprio corpo enquanto sigo capturada pela cena. Na noite dessa terça-feira (6/7) assisti a um espetáculo cujo acalanto já estava em seu próprio nome; estava no nome do grupo. E, mais ainda, naquela noite, meu acalanto começou mesmo antes da entrada do público. Começou em uma sala de produção. Numa daquelas conversas rápidas e gostosas com uma pessoa que admiro: Solange Dias, a Sol para muitos, que tem buscado fôlego para alumiar a cena livre para que ela seja, assim, uma luz livre e potente.

Por coincidência o texto encenado naquela noite foi escrito pela Solange. E foi escrito nos anos de 1990, numa oficina de dramaturgia com Luis Alberto de Abreu, para o pessoal do Grupo de teatro Abaporu (com Cássio Castelan, Esdras Domingos, Marcelo Gianini, Sidnei Maltrone e a própria Solange). Tinha aquela pegada da pesquisa existencialista, daquela pesquisa toda “cabeção” (como definiu a própria Solange no nosso instante de bate-papo). E, de repente (porque hoje o tempo corre e logo tudo é de repente), o texto está sendo dito, encenado por jovens estudantes. E a tal pesquisa cabeção ganha diversos significados. Significados até então não percebidos pela própria dramaturga. E aqui começa a beleza da encenação: a potência do texto que brota do papel e ganha corpo e voz. A beleza reside em como aquele que narra, encena, decide fazê-lo.

A dramaturgia foi criada a partir da música homônima do Elomar Figueira de Mello e traz a história de um rei triste e uma princesa que sonha conhecer a vida que se apresenta além da janela. O Ser. Quem somos. Tantos papéis. Tantas tarefas executadas a exaustão por sermos quem somos. E os jovens atores, muito antes da entrada do público, já estavam lá buscando suas muitas possibilidades de serem.

Logo que entrei no espaço de encenação, enquanto os atores se aqueciam, uma das atrizes disse a um dos atores: “Quando eu disser: Mas, meu Rei – você me olha, tá bom?!”. Confesso que fiquei esperando por este momento durante o espetáculo e ele me passou despercebido. Não sei se ele a olhou naquele instante exato. Espero que sim. Mas sei que um outro ator, pela primeira vez, conseguiu passar o lápis na linha do olho sozinho. Sei que eles alongaram as pernas, giraram os quadris, desenroscaram o elástico, limparam o piso, organizaram os adereços, o cheiro do incenso tomou conta do espaço, todos foram para o tablado, foi feito o círculo e, ali, se conectaram.

Sei também que, antes do público entrar, foi lido um manifesto pelo e para o teatro estudantil. Sim, uma jovem menina, de madeixas levemente azuis, nitidamente nervosa, com sua voz delicada e trêmula leu para todos enfatizando a importância de estarem ali representando o teatro estudantil no primeiro FELT. Eles próprios príncipes e princesas, sonhando diante de reis, rainhas e outros tantos sonhadores que, como eles, compreendem a potência do teatro que fazem.

Entramos todos para o acalanto, para admirar jovens com corpos nitidamente nervosos, vozes levemente embargadas e que foram, aos poucos, sendo tomados pelo próprio frescor delicado da cena, pela plasticidade criada pelos corpos, pela busca da máscara, pela delicadeza da luz. O fazer. O ofício certamente trará ao grupo a maturidade e a presença em cena que, em poucos momentos, escapou pelos dedos. Mas, no instante de agora isso não importa (isso é tarefa para os jovens e o diretor na constante busca da encenação). É preciso que se diga: ali se fez teatro. Teatro jovem. Estudantil. Potente. Livre.

Sai, certamente, acalantada: pela dramaturgia, pela encenação, pelas pessoas que ali estavam em seus ofícios. E sai também cheia de desejos: desejando que a Sol continue alumiando (força, que nosso ABC, nosso subúrbio, ainda há de abrir caminhos de libertação e valorização dos que encontram na arte seu ofício), que os jovens continuem em busca da potência de sua arte (pois há beleza na voz embargada, na ousadia da experimentação), que o espaço continue sendo um local para o exercício da liberdade (e que as goteiras sejam apenas aquelas que nos escorrem dos olhos diante da beleza da cena). Que este seja apenas o primeiro FELT. Que haja luz, potência, liberdade e acalanto.

 

WhatsApp-Image-20160707Paula Venâncio
Sócia-criadora do Escritório de Ideias, empresa de Produção e Comunicação Cultural. Responsável pela comunicação e assessoria de imprensa da Trupe Sinhá Zózima, grupo de teatro que pesquisa o ônibus como espaço cênico. Mestre em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, onde desenvolveu pesquisa, com apoio Fapesp, sobre a memória do Teatro no ABC. Jornalista formada pela mesma instituição, em 2009. Desde 2007, participa do Memórias do ABC – Núcleo de Pesquisas e Laboratório Hipermídias da USCS. Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul, em 2004. De 2003 a 2013, trabalhou no Programa de Cidadania artística Viva arte Viva, ministrando aulas de iniciação teatral (2003-2009) e coordenando o projeto (2013).