Apreciação Crítica de Má Pele

Apreciação Crítica de Má Pele

por Dione Carlos

 

Má Pele coloca em cena o cotidiano de quatro crianças separadas de suas famílias e internadas em uma instituição do governo por serem filhos de pais hansênicos (Leprosos).

Criada a partir de um fato verídico (a internação compulsória de hansênicos em asilos colônias e de seus filhos em preventórios), Má pele reescreve a história dessas crianças sem voz, números de matrícula de instituições públicas, estatísticas de dado populacional, alvos de uma política de segregação entre doentes e saudáveis (Fato ocorrido na Era Vargas), e o faz por meio de elementos cênicos potentes (Como a música, por exemplo).

Dramaturgicamente apoiado nas narrativas das crianças, Má pele nos insere historicamente com o apoio de recursos visuais (projeções), e nos transforma em ouvintes, espectadores da voz, do olhar infantil diante da violência institucional perpetrada sob um discurso de “proteção, educação e cuidado”, que ignorou os efeitos brutais de laços familiares partidos diante de uma separação forçada.

Em Má pele, narrativas e diálogos contribuem para a teatralidade em cena. A música, elemento recorrente, cantada e executada através de instrumentos, contribui para o desenvolvimento de determinadas cenas. Algumas com forte caráter performático, como a bela cena em que uma atriz é banhada dentro de uma bacia de alumínio (Aliás, cena que retrata um exemplo de castigo aplicado nos preventórios), ou em que uma das crianças é envolvida por bexigas coloridas em seu aniversário. Tudo executado com muita sensibilidade.

Um diálogo cômico entre duas faxineiras oferece uma visão muito específica do momento histórico, cultural e político no qual a peça acontece e que poderia ser transposto para o momento atual, dada a característica de eventos cíclicos do nosso país, como os golpes de poder seguidos de governos autoritários, por exemplo.

Sem recorrer ao melodrama, somos colocados juntos aos internos em seu cotidiano, com uma breve introdução de suas histórias, de como chegaram ali, da recepção oferecida no primeiro dia. De observadores do que ocorre no pátio, passamos a colegas de dormitório, compartilhando momentos de humor, temor e solidão com os internos.

Tomo a liberdade de dizer que, em dado momento, diante do meu próprio olhar enquanto espectadora, as camas não recebiam apenas os filhos dos leprosos, mas também os menores infratores, os dependentes químicos, as crianças órfãs ou acauteladas, os idosos, os moradores de rua e os doentes mentais, alvos de internações compulsórias, vítimas, muitas vezes, de tratamentos assassinos. Nenhum ser humano deveria ser institucionalizado. Algumas cartas escritas por Artaud aos seus médicos deveriam ser leituras obrigatórias nas escolas e universidades.

Há uma frase de Eduardo Galeano em que ele diz: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador”. Penso que retornar a eventos históricos, recriá-los por meio da arte, é fazer do artista não um “historiador de leões”, mas alguém capaz de oferecer “a visão do leão aos espectadores”. Criar mais perguntas do que respostas. Oferecer algo que nos obrigue a enxergar um assunto de outra maneira. Um novo olhar. Outras narrativas. Precisamos delas para expandir o nosso imaginário, cada dia mais massificado e manipulável.

Má pele proporciona habitarmos a pele dos segregados através do universo infantil, ambiente fértil primordial de criação artística. Uma fase em que nosso imaginário ainda não foi escravizado. Poder retornar a este estado, ainda que por um tempo determinado, faz valer o espetáculo.

O fato de ser uma peça realizada por um grupo do interior de São Paulo (Jacareí), prova que é preciso proporcionar intercâmbios artísticos, como este realizado pela ELT através do festival (Aliás, com uma programação muito bem elaborada, democraticamente variada e essencial ao púbico e aos artistas envolvidos). Sem recursos estratosféricos, este festival prova que é possível promover o encontro entre artistas, com o público e muita reflexão sobre as nossas produções e a de nossos colegas.

DIONE CARLOS
Dione Carlos nasceu no Rio de Janeiro e mudou para São Paulo aos dezenove anos.  Cursou jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo e formação de ator no Globe-SP.  Formada em dramaturgia pela SP Escola de Teatro. Integrou a Cia Teatro Promíscuo do ator Renato Borghi por dois anos, como atriz. Atua como dramaturga de forma independente com Cias de teatro. Teve textos encenados pela Cia Club Noir, Cia do Pássaro, Cia do Caminho Velho e Cia do Mofo, além de ter participado de Mostras e Festivais de teatro em São Paulo e outros Estados. Possui textos publicados nas revistas Antropositivo, Jandique (de Curitiba) e no blog Caos Descrito.

 

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