Apreciação Crítica de O Chamado da Terra

Só voo é inadiável ou uma apreciação crítica da peça O chamado da terra da Ouroboros Companhia

por Rudinei Borges


Todas as vezes que uma criança diz: “não acredito em fadas”, uma pequena fada cai morta em algum lugar.

(James Matthew Barrie)

O primeiro voo de um pássaro, depois de anos preso em uma gaiola, é a cena mais engenhosa de O chamado da terra, espetáculo teatral para crianças da Ouroboros Companhia, de São Paulo, apresentado no 1° Festival Livre de Teatro (Felt), promovido pela Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT).   

Metáfora suficiente talvez não exista que dê conta do voo de um pássaro. O movimento no ar e sem contato com o solo, próprio das aves, de muitos insetos e de alguns animais, desde os primórdios é ato que põe o ser humano debaixo e defronte de um encantamento próximo do inefável (o maravilhoso), quase invídia, como se nos perguntássemos, ainda no Éden, o porquê de Deus ou da natureza ou do diabo não ter nos concedido asas.

Diz-se do mito dos gregos que Dédalo ajuizava um modo de fugir do cárcere, unido com seu filho Ícaro. Eram dominados pelo rei Minos, portanto Dédalo apreendeu que não teria como fugir nem por terra nem pelo mar. Principiou então a abocar as penas que caíam dos pássaros que sobrevoavam a prisão e com elas ambicionava construir asas, pois apenas os céus não estavam sob o domínio do rei. Fez dois pares de asas, unindo as penas com cera de abelha. E quando estavam prontas, confiou um par a Ícaro, com a instrução precisa de que, em seu voo, tinha que cuidar para não subir tão alto, pois o calor do sol derreteria a cera, nem tão baixo, pois a umidade do oceano faria com que as penas pesassem em demasia, a tal ponto de não conseguir mais manter-se no ar. Dédalo voou segundo suas próprias recomendações e escapou da prisão. Ícaro, todavia, encantado com a possibilidade de voar, subiu até um ponto em que a cera de abelha liquefez e as asas desfizeram-se, o que culminou em sua morte no oceano – Ícaro não era um pássaro.

Se Ícaro não alcançou a travessia do oceano, Kalulu, Manu e Rubi, os três meninos da peça escrita e dirigida por Luanda Eliza, não só libertam o pássaro encarcerado como fazem longo cruzamento rumo ao encontro do mago Mistério, personagem mágico que os conduz na transformação da cidade onde vivem, Acibacistem, como os desafia na busca pelo sentido de suas próprias vidas. O êxito do espetáculo efetiva-se exatamente na composição metafórica da travessia em direção ao Mistério ou ao misterioso, antes incitada pela fada Gaia, outro personagem mágico que hora ou outra acende espécie de chama que altera o itinerário existencial dos três meninos, como se imputasse neles aquela indagação que a certa altura aparece em Peter Pam, livro do escritor e dramaturgo James Barrie (1860-1937): “Você conhece aquele lugar entre dormir e acordar, o lugar onde você ainda pode lembrar-se de sonhar?” Em muitos sentidos, parece-nos de início que os meninos de O chamado da terra estão encerrados na ausência de sonho e imaginação. Arrastam-se, robóticos em seus movimentos, impedidos de brincar com liberdade; impedidos de adentrar a ludicidade de um simples jogo de peteca. Alçar voo, a travessia, na peça da Ouroboros Companhia compreende (re)invenção e atualização da brincadeira como jogo de (re)encontro entre crianças, (re)conexão na diversidade.

Destarte, neste jogo/(re)conexão, chamado da terra, deparamos com musicalidade vibrante em composições inéditas criadas pelo próprio grupo e na trilha sonora de Mauricio Damasceno, que também assina a direção musical. As canções são entoadas pelos atores em cena, ora em coro e ora em solos acompanhados de instrumentos eletrônicos como guitarras. Toda a encenação é também perpassada pela melodia de um saxofone soprano, mysterium tremendum que nos aloca para um estado vigoroso de contemplação da fábula narrada. Em verdade, toda esta obra da Ouroboros Companhia está alicerçada em qualidade considerável de aproximação do sensível: não é preciso o uivo quando basta o sussurro. E a musicalidade da peça nos motiva a erigir em conjunto o artesanato poético da travessia dos meninos de Acibacistem.    

Os atores Aila Rodrigues, Leandro Goulart, Marcela Pupatto, Rafaela Xavier e Thiago França compõem de modo significativo um trajeto de transformação do corpo, em princípio robótico e enrijecido, marcado pela dureza do anseio de controlar o tempo, cumprir agendas impostas por adultos e responder matematicamente às questões mais singulares – como se deveras um criança pudesse, de fato, fazer tudo isso. O corpo dos atores ganha outros ares à medida que seus personagens vão encontrando sentido na aproximação e na amizade recém-descoberta. A este estágio corporal é conferida leveza e expressão facial de riso, como se aqueles três meninos experimentassem pela primeira vez um contentamento não individual, mas coletivo e motivado por cumplicidade e disposição de se colocar no lugar do outro. Neste sentido, o quinteto de atores assume com pujança o compromisso cênico de não infantilizar a fábula nem de injetar um ativismo desnecessário.

A direção de Luanda Eliza é precisa, sobretudo quando dispõe de um conjunto cênico harmonioso como figurinos e adereços que vão do rústico ao jeans arrojado, conferindo atemporalidade à indumentária dos atores, e ao mesmo tempo nos põe a adentrar vertiginosamente um conto de fantasia. Tecidos leves arranjam as asas de um pássaro que, de imediato, nos levam ao maravilhoso, termo usado com assertividade pelo poeta Affonso Romano de Sant’Anna a respeito da microssérie Hoje é dia de Maria, dirigida por Luíz Fernando Carvalho a partir da peça de Carlos Alberto Soffredini (1939-2001). A luz ensolarada de fim de tarde somada à delicada iluminação de Robson Lima promulgam certa sacralidade ao espaço onde a peça é encenada, pondo-nos todos na mesma travessia de (re)edificação dos sentidos. Nesta seara, o trabalho de encenação de Eliza, dispondo de recursos teatrais potentes, aponta para a instituição de um mundo novo. A cidade de Acibacistem, uma alusão à São Paulo caótica e acinzentada, após o retorno dos três meninos, ganha colorido e alegria a partir da brincadeira e da roda como meio de (re)invenção do mundo.

A Ouroboros Companhia estabelece também relevante reflexão sobre o condicionamento do tempo, pelos adultos, em relação às crianças. Re(fazer) o sentido de existir no mundo é também (re)inaugurar outros modos de conceber e entender o uso do tempo para além do atarefamento e da disciplina aterradora de horários, agendas e compromissos inadiáveis. Em O chamado da terra só é inadiável a leveza da brincadeira dos meninos; só é inadiável, para pensar outra vez as palavras de Affonso Romano, “o arrojo de ingressar numa espécie de quarta dimensão, que é onde a obra de arte, pelo maravilhoso, fala ao inconsciente de todos.”

Só voo é inadiável.

rudineiRudinei Borges é dramaturgo, poeta e ficcionista. Diretor e pesquisador de teatro. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se em Filosofia no Centro Universitário Assunção. Autor dos livros Chão de terra batida, Dentro é lugar longe, Teatro no ônibus, Fagulhas e Memorial dos meninos. Fundador do Núcleo Macabéa, onde pesquisa memória, dramaturgia e história oral de vida. Integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e cursos do Teatro Escola Macunaíma e da SP Escola de Teatro. Escreveu as peças Dezuó, breviário das águas, Revolver, Fé e peleja, Agruras, ensaio sobre o desamparo, Dentro é lugar longe e Chão e Silêncio. Colaborou dramaturgicamente com o Coletivo Negro, Cia. do Miolo e Trupe Sinhá Zózima. Assina críticas de teatro na página Alzira re(vista).
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