Apreciação Crítica de Pão e Circo

Espetáculo Pão e Circo demonstra domínio da linguagem brechtiana

por Rodrigo Morais Leite

Já houve um tempo no teatro brasileiro, por volta do final dos anos de 1950 e início de 60, em que a introdução do teatro épico-dialético, ou seja, aquele baseado nos pressupostos de Bertolt Brecht, foi motivo de muitos equívocos e controvérsias. Entre outras coisas, isso se sucedia em virtude do desconhecimento da linguagem brechtiana, tanto por parte dos artistas de teatro quanto da crítica, despreparados seja para produzir um espetáculo que se inserisse nesse campo estético, seja para analisá-lo. Com o passar dos anos, à medida que o brechtianismo foi sendo assimilado, passando inclusive a ser ensinado nas escolas de teatro, tais mal-entendidos foram diminuindo, embora não se possa dizer que tenham desaparecido ou que um dia hão de desaparecer. De todo modo, só isso explica o fato de, ao estrear seu segundo trabalho, um grupo contemporâneo tão jovem como o Coletivo Menelão, originário de São Bernardo do Campo (SP), já demonstre intimidade com a forma dialética.

Trata-se de Pão e Circo, apresentado no primeiro FELT (Festival Livre de Teatro). Livremente inspirado em um texto do grande teórico e dramaturgo alemão chamado A Padaria (1929-30), o espetáculo do grupo são-bernardense não desmente da primeira à ultima cena o universo estético (e ideológico) no qual se posiciona, por meio da oposição estabelecida pela dramaturgia entre a classe dos proprietários, representada pelos donos de um jornal e de uma padaria, e seus respectivos empregados. Movendo-se não a partir de conflitos intersubjetivos, como é próprio do drama tradicional, mas das contradições existentes entre distintos entes sociais, no caso entre a classe que detém e a que não detém os meios de produção, Pão e Circo é uma crítica contundente à exploração do homem pelo homem própria do sistema capitalista.

A trama gira em torno da Sra. Leal, viúva, mãe de sete filhos e empregada de uma padaria que, após servir de “bode-expiatório” em um negócio envolvendo a dona do estabelecimento e um banco, se vê arruinada, no que será auxiliada pelo jornaleiro Washington, outro explorado. Servindo de anteparo no confronto envolvendo as forças do setor terciário e do capital financeiro – que extrapolam, e muito, as do indivíduo – os “protagonistas” são esmagados por uma dinâmica e uma organização social que lhes é totalmente hostil. Nessa trajetória, acrescente-se, ainda há espaço para censuras ao imperialismo norte-americano, à polícia militar e às organizações não governamentais de uma maneira geral, estas por meio da personagem Pati Faria, uma assistente social a representar interesses travestidos de públicos mas que, em verdade, são privados. O Estado terceirizado. Tudo isso devidamente intercalado e comentado por um coro de desempregados.

Para a realização cênica desse material dramatúrgico, o grupo, formado por sete atores, faz uso criativo de um andaime como cenário, basicamente dividido em três áreas de representação e onde, a depender das conveniências, e dos acessórios que lhe são sobrepostos, “surge” uma padaria ou a casa de alguma personagem. Para realçar a diferença entre oprimidos e opressores, e acrescentar expressividade à atuação, os últimos são interpretados com os atores servindo-se de meias-máscaras, o que, talvez, denote alguma influência da commedia dell’arte na pesquisa que deu origem ao espetáculo, pois nesse gênero de comédia popular, todas as personagens, com exceção dos enamorados, assim se apresentavam.

Embora o grupo demonstre domínio da linguagem a que se propôs desenvolver, para um espetáculo de rua, Pão e Circo se revela um pouco fechado em si mesmo, ou, em outras palavras, um pouco preso em demasia ao texto. Para que a obra alcançasse um voo (ainda) maior, talvez fosse interessante que ela se mostrasse mais “porosa”, o que equivale a dizer que os atores, em alguns momentos, deixassem o texto de lado e jogassem mais com o público – dentro, é claro, do limite temático estabelecido pelo próprio texto. Como os atores mantêm com os espectadores uma relação quase sempre frontal, um fator que por si só já estabelece certa distância entre uns e outros, semelhante recurso se revelaria ainda mais importante no sentido de não deixar com que o espetáculo se torne demasiado, por assim dizer, ensimesmado, o que seria, de algum modo, negar a proposta popular dentro da qual ele pretende se inserir.

Outra observação diz respeito ao ritmo imprimido à encenação, acelerado um pouco além da conta. Compreende-se que assim o seja para conferir à obra um caráter de farsa circense, algo possível de se depreender inclusive do título, que não se refere exatamente à famosa política pública existente no período da Roma Antiga. Contudo, como não se trata de uma farsa, gênero despretensioso em termos literários, mas de um texto político que possui certo grau de complexidade, o ritmo acelerado, com as cenas se sucedendo de maneira muito vertiginosa, atrapalha a sua compreensão, fazendo com que o público não tenha o devido tempo para assimilá-lo e, assim, fazer as devidas ilações morais a partir dos episódios – mesmo que o coro depois o faça. Sobre esse aspecto, o uso mais intensivo da guitarra, que no espetáculo parece um tanto subutilizada, poderia servir como uma boa solução, pois o instrumento poderia aparecer, vez ou outra, fazendo a ligação de algumas cenas, ralentando o tempo do espetáculo sem alterar o ritmo da atuação, que tem, como se viu, a sua razão de ser.

Ao revelar desenvoltura com a linguagem épica de Brecht, o Coletivo Menelão parece ter dado um passo decisivo em uma trajetória que, supõe-se, iniciou-se na perspectiva do teatro dramático, uma vez que o primeiro espetáculo do grupo foi construído a partir de textos de Plínio Marcos, obra a que o crítico não teve a oportunidade de assistir. Se optar em seguir adiante pela trilha do teatro dialético, espera-se que o grupo, além do domínio da linguagem, revele também aquela “nota original” que o distinga dentro dessa vertente no panorama teatral da Grande São Paulo, algo importante para a sua consolidação. Talento para isso ele tem.

Rodrigo Morais Leite é mestre e doutoraRodrigo Morais Leite (Foto nº 2) (1).JPGndo em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), onde desenvolve pesquisa voltada às áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Leciona teoria teatral na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos.
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