Apreciação crítica de Ponto segredo. Primeiros fios

As tecituras de um subúrbio meu e seu

Ponto segredo. Primeiros fios, com Pontos de Fiandeiras (Santo André/SP)

por Paula Venâncio

Três. Ao mesmo tempo eu-você-tantas-outras-muitas-muitos-outros-tantos-você-eu. Três mulheres. Fiandeiras tecendo o tempo e as lembranças, narrando o subúrbio silenciado. O campo, a cidade, o trabalho, a fábrica, a ferrovia, o ir, o vir, o ficar, o estar, o ser, o amar. A mulher no alinhavar dos dias. A delicadeza do passar da agulha entre os fios, a escolha dos pontos, a composição das cores, o calor da manta tecida, a beleza da cena. Assim foi a última noite do 1º FELT, com o grupo Pontos de Fiandeiras e seu espetáculo Ponto Segredo. Primeiros Fios, com direção de Sérgio Pires e dramaturgia de Adélia Nicolete (premiada, em 2013, pela Cooperativa Paulista de Teatro).

O espetáculo nos traz a relação poética entre o tecer e o viver por meio de narrativas de lembranças de três velhas fiandeiras, que vão, aos poucos, nos transportando para dentro de nós mesmos no emaranhado de nossas próprias lembranças. Impossível evitar a projeção ao universo da memória, aos cheiros, cores, texturas de um passado recente, de um presente narrado em forma de lembrança. Me peguei pequenina arrumando os botões por cores, tamanhos e tipos na caixa de costura de minha mãe, em volta da mesa da cozinha, enquanto ela enrolava os retroses de linhas que estavam frouxos. Senti o cheiro do pão recém-assado no forno da casa da minha avó, entrei pela porta da cozinha, vendo o sol rasgando o espaço, deitando sobre a mesa e iluminando o peito do quadro-relógio de Jesus pendurado na parede musicando a cena com seu tic-tac.

Nessa noite de espetáculo tantas vezes fui e voltei dali. Fui para dentro de mim, para dentro delas e suas narrativas. Pontos. Tantos pontos deslocados do centro. Pontos à margem da história. Mulheres cuja histórias estão em nossas entranhas, mas não figuram ainda fora de nós como é merecido e necessário. O espetáculo traz voz, corpo, cheiro e cor ao subúrbio, aos seus primeiros fios, às redes de sociabilidade, às relações de identidade e identificações dessas mulheres fiandeiras, muitas vezes deslocadas, silenciadas pelo cotidiano. Além da fruição estética e da simplicidade da encenação e direção (e aqui a simplicidade se faz genuinamente bela), a pesquisa do grupo, a escolha do tema traz a potência do trabalho e a necessidade de sua continuidade e conhecimento.

O sociólogo José de Souza Martins, um senhor detentor de um lindo bigode branco (e assim lanço meu profundo respeito e admiração por sua trajetória), conhecedor das entranhas do ABC paulista, nos diz que o “subúrbio construiu a sua identidade a partir do reconhecimento e proclamação do trabalho e do trabalhador como virtude e sujeito”. E isto é tão verdadeiro. Aparece ali corporificado, verbalizado nas narrativas: o orgulho do ofício, a necessidade do trabalho para existir (por razões óbvias dentro da órbita capitalista, das relações de poder, por razões fisiológicas e filosóficas), a necessidade de encontrar pontos de encontro, uma sabedoria de vida disfarçada de conformismo aos olhares jovens contestadores. Mulheres/sujeitos deslocados de sua própria história, encontrando coragem em suas narrativas de lembranças. Ultrapassando o olhar para e sobre o trabalho, revelando medos, anseios, amores, vontades, desejos, segredos. E narrar o sujeito exige coragem. É subverter a ordem.

A força do subúrbio está nas histórias do cotidiano, nos sujeitos que fizeram e fazem do espaço aparentemente deslocado, posto à margem, um local de criação, de circulação, de mestiçagens, de sociabilidade. A história do ABC paulista está nos sujeitos que tecem seus dias e suas noites, está no silêncio dos trilhos durante as madrugadas, no apito das fábricas, nas tecelagens, nas cerâmicas, nos carros que saem brilhando das esteiras das fábricas, no cheiro do feijão borbulhando na panela de pressão, nas mãos das fiandeiras, nos calos dos pés do trabalhador, no copo de cachaça vazio no balcão do bar, no badalar do sino de domingo, na bicicleta sem freio do menino que desce a ladeira, na tatuagem que preenche as costas da menina, no amplificador da guitarra que faz o portão da garagem tremer, no senhor que dorme na cadeira da casa de repouso, no topless da garota encostada no muro da fábrica desativada no fim da tarde de inverno, está no olhar, no suor, no silêncio e na respiração de todos nós. Está nas mãos de artistas que como as belas fiandeiras, Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia e Vivian Darini, decidem fazer dele (subúrbio) sua pesquisa artística/cênica.

A região do ABC, a cidade, você, eu, merecemos esse olhar, esse vasculhar no campo da memória, esse religar-se à história. Tanto que não foi à toa que nesta noite tantas lágrimas brotaram de tantos olhos, em momentos distintos, que tantos olhares se perderam dentro de si mesmos, que se ouviu tantos zíperes se abrindo discretamente para buscar o papel para assoar o nariz que escorria. Assistindo ao espetáculo, nos encontramos com nossa própria história, ressignificamos o trabalho, o tempo, o amor, a vida, o subúrbio, por meio das narrativas de lembranças. E muito se engana aquele que pensa que o ABC paulista foi palco da indústria, das greves e revoluções trabalhistas. Ele foi isso sim, também. E ele foi é o que é por conta dos sujeitos que fazem revoluções cotidianas em busca da sobrevivência (como indivíduos criadores, como comunidade em suas redes de sociabilidade, como força de trabalho, como artistas que comunicam identidades e identificações). É preciso olhar para o subúrbio. É preciso tecer essa história. Fiar o tempo. Brotar memória.

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Paula Venâncio
Sócia-criadora do Escritório de Ideias, empresa de Produção e Comunicação Cultural. Responsável pela comunicação e assessoria de imprensa da Trupe Sinhá Zózima, grupo de teatro que pesquisa o ônibus como espaço cênico. Mestre em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, onde desenvolveu pesquisa, com apoio Fapesp, sobre a memória do Teatro no ABC. Jornalista formada pela mesma instituição, em 2009. Desde 2007, participa do Memórias do ABC – Núcleo de Pesquisas e Laboratório Hipermídias da USCS. Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul, em 2004. De 2003 a 2013, trabalhou no Programa de Cidadania artística Viva arte Viva, ministrando aulas de iniciação teatral (2003-2009) e coordenando o projeto (2013).