Apreciação Crítica de Portar(ia) Silêncio

Apreciação Crítica de Portar(ia) SiLêncio

por Cássio Pires

“Portar(ia) Silêncio” detém-se sobre um ofício bastante representativo do modelo de sociabilidade das grandes cidades brasileiras. Bem menos usual em edifícios residenciais ou comerciais de outras partes do mundo, o serviço de portaria é um dos legados da cultura da Casa Grande, típica de um país que tardou em desenvolver sua classe média e ainda não conseguiu universalizar o acesso a direitos elementares. Nessa cultura, só muito recentemente começou-se a estranhar o orgulho que as classes dominantes (bem como a classe média, que se julga dominante) manifestam em ter ao seu dispor serviços que proporcionam uma espécie de reprodução barata de um certo modelo de vida aristocrática. Pagar pouco para que abram e fechem nossos portões, limpem nossos cômodos, pintem nossas unhas, passem nossas roupas, abasteçam ou manobrem nossos carros ou façam a vigilância de nossos imóveis é das características mais visíveis do modelo social torto que construímos.

O solo com atuação de João Junior parte da colheita de depoimentos de uma série de porteiros que trabalham na cidade de São Paulo. Ainda que a questão do Trabalho seja um pressuposto em um recorte de pesquisa que se interessa por um tipo específico de emprego, a montagem concebida pelo coletivo “Estopô Balaio” não está particularmente interessada em verticalizar o olhar para os relatos sobre suas condições de trabalho; antes, o que parece estar em jogo é travar um corpo-a-corpo com os sujeitos que se escondem atrás de uniformes, suas memórias, seus cotidianos, sua linguagem e suas visões a respeito dos trânsitos migratórios que viveram.

Esses depoimentos são a matéria prima de um espetáculo dedicado não só a tornar visíveis (e audíveis) as subjetividades de seus depoentes, como também a revelar o jogo de relações que se estabelece entre João Junior e os autores dos depoimentos. Nordestino migrante como eles, João Junior não se esconde detrás de um ponto de vista que se pretende neutro; assim, não fala sobre “eles”, mas acima de tudo problematiza o seu encontro com eles.

As perguntas em torno desse encontro vão se materializando na sucessão de cenas do espetáculo, conduzidas por um trabalho de atuação bastante sólido. Desinteressada em produzir uma curva dramática, de vocação inequivocamente performativa, sua dramaturgia dispõe uma sucessão de cenas sem relação causal, uma justaposição de variações sobre o mesmo tema, que cuidam de acumular novos aspectos da fricção entre pesquisador e pesquisados e que transitam do silencio à mimese dos depoimentos, da narrativa à movimentação coreográfica e desta às projeções das imagens documentais, por sua vez entremeadas por considerações do ator sobre o processo de filmagem dos depoimentos.

Ao final, nada é categoricamente denunciado: “Portar(ia) Silêncio”, caçadora de centelhas de humanidades, sem rejeitar sua vocação para a cena política, é um mosaico de especulações diversas sobre a dialética entre identidade e alteridade que caracteriza a relação entre atuador e porteiros, em que João Junior não se restringe ao arrivismo de nos dizer “quem são eles”, mas, principalmente, se pergunta: o que eles revelam sobre mim, meu corpo, meu ofício, minha trajetória? E sobre nós, nossas cidades, nosso modelo de relações sociais, nosso momento histórico?

CassioPires

Cássio Pires é dramaturgo e diretor formado em Letras pela USP. Iniciou sua atividade teatral em um grupo amador de Ribeirão Preto. Além de textos encenados por diversos grupos brasileiros, têm peças  montadas na Itália e Alemanha.
Integrou os grupos Tablado de Arruar e a Cia. dos Dramaturgos  e, atualmente, é diretor artístico do Coletivo Teatral Filme Be. Conjuga a atividade dramatúrgica com a docência,  atuando como professor de teoria do teatro em ensino superior.
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