Apreciação crítica de Trotsky

APRECIAÇÃO CRÍTICA DE TROTSKY – PEÇA PARA TELEVISORES E NÃO TELEVISORES
por Mariana Senne
Trotsky, peça para televisores e não televisores” já começa, como o próprio título sugere, a exigir do espectador uma postura: você que assiste, é uma máquina de reprodução de discursos ou não?
 
Sentados numa mesa de bar, dois intérpretes nos esclarecem que estamos numa ilha de edição e que a sonoplastia não tem o intuito de envolver o espectador,  mas sim despertar uma postura crítica em relação ao que será visto: uma cena punk jazz. E nessa pegada, seguindo o lema punk “Faça você mesmo!”, os performers, acompanhados de três músicos, algumas televisões, livros e uma árvore cenográfica, se embrenham na investigação do que teria acontecido ao militante de esquerda Trostky, numa ação performática totalmente revelada à platéia, sem nenhum intuito de representação, num improviso musical cênico incessante e nervoso.
 
Assitimos a diferentes versões sobre a investigação: O filme (nomeado pelos intérpretes como um enlatado norte-americano), uma versão em vídeo de uma espécie de abertura de processo de criação do prórpio espetáculo, e por fim a encenação em si, comentada seja pela música, ou pela leitura de textos teóricos, ou pelo jogo de cena dos atores, que por vezes executam pequenos programas performáticos. São essas as três camadas apresentadas à platéia.
 
O prólogo é um convite a imaginar junto a encenação, já que nessa ilha de edição quem de fato faz o corte é o público. As linguagens se mesclam e se atravessam. A ficha técnica falada no início remete à estrutura do cinema com seus letreiros de aberturas de filmes, entretanto, não há projeção. A ação do trio de jazz nos faz crer que ora estamos num concerto, ora numa garagem punk, ora num teatro. Existe portanto um jogo permanente entre o que é e o que poderia ser. E é aí que a encenação ganha força, já que um dos assuntos da peça, a utopia, também se faz presente na forma e não só no conteúdo.
Se tomarmos do dicionário Aurélio uma das definições do significado da palavra utopia: 2. qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade, poderíamos supor que o coletivo Zona Autônoma tem a intenção de colocar em cena uma alegoria da esquerda. Num momento em que, no país, se rasgou a constituição e se colocou no poder um governo ilegítimo através de um processo vestido de legalidade, a fábula fictícia de um militante de esquerda que pode ter se matado ou talvez tenha sido assassinado funcionaria muito bem como alegoria. Entretanto Trotsky – peça para televisores e não televisores, na sua verve anarquista, já se deu conta faz tempo de que o buraco é mais embaixo.
“Estamos sendo partidos. A sua negação de tomar partido está sendo servida no prato de alguém. De quem?” Essa pergunta parece ser o centro da peça. E quando associamos a ela, a cena do pai de Trostky sentado no carro, fumando tranquilamente enquanto o mundo desaba, o jazz rock punk comendo solto e o Senhor Nicolau impávido colosso, chegamos a uma perfeita imagem da atualidade. Digo da atualidade, pois o Zona Autônoma não está só a falar do Brasil: “Os heróis e os fodidos se igualam aqui no Brasil e na Rússia”,  “O mundo não acaba nunca”, cantam e gritam ao final da performance.
 
 E é na leitura da carta de renúncia de Trostsky ao pai, que percebemos que os intérpretes entendem o sentido da palavra utopia como o “lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.” E já que, parece não ser possível imaginar isso atualmente, por estarmos todos “presos a uma forma muito específica de ver o mundo”, pelo fato do imaginário coletivo estar cerrado numa espécie de“enlatado americano, em que nunca se pode enaltecer a figura de um revolucionário apenas de um empreendedor”, é que a utopia parece não mais servir para nos fazer andar. E assim como no filme O bandido da luz vermelha de Sganzerla, Trotsky Peça para televisores e não televisores decide avacalhar.
Foto criada em 2012-06-30 às 20.12
Mariana Senne é uma das fundadores da Cia. São Jorge de Variedades onde realizou diversos projetos de pesquisa de 1999 a 2012. Trabalha também em parceria com outros artistas e coletivos da cena paulistana e da cena livre na Alemanha como o grupo berlinense Andcompany&Co. e o coletivo Friendly Fire da cidade de Leipzig. No último ano cursou uma especialização em encenação no Mestrado “Encenação das Artes e das Mídias” na Universidade de Hildesheim, subsidiada pela bolsa de estudos do DAAD. Atualmente vive e trabalha entre a Alemanha e o Brasil onde realiza projetos de criação e pesquisa. Foi professora de interpretação e corpo na Escola Livre de Teatro entre 2007 e 2012.