Apreciação crítica de Ulisses à Deriva

Ulisses à Deriva é uma adaptação teatral digna de um dos maiores monumentos literários do século XX

Por Rodrigo Morais Leite

Ulisses à Deriva, como o nome já indica, é uma livre adaptação teatral de Ulisses (1922), de James Joyce, romance que muitos críticos e historiadores da literatura consideram como o melhor do século XX. Obra que já nasceu célebre por conta do escândalo gerado na ocasião do lançamento, em virtude de sua excessiva carga sexual, hoje a fama de Ulisses é devida especialmente ao seu tão decantado hermetismo, a ponto de haver vídeos na internet, falados inclusive em português, de pessoas explicando por que desistiram de lê-la, tamanha a dificuldade que enfrentaram ao se depararem com a prosa joyceana.

Em uma empreitada como essa, entre os inúmeros riscos que se correm, dois se sobrelevam: a adaptação ficar hermética demais, reeditando no palco outra obra (supostamente) impenetrável; ou ficar literária demais, isto é, verborrágica, totalmente amparada em uma dramaturgia textual. No caso de Ulisses à Deriva, embora não se possa dizer que se trate de um espetáculo de fruição fácil, algo até certo ponto normal, ele escapa com habilidade à armadilha de se apoiar somente na literariedade do original. Isso se deve, antes de tudo, à solução formal conferida ao espetáculo, de modo que ele pudesse transmitir, em linguagem teatral, as aventuras e agruras de Leopold Bloom e sua esposa Molly, os protagonistas do romance – juntamente com Stephen Dedalus e Malachi “Buck” Mulligan, personagens que não aparecem na adaptação, feita por Lucienne Guedes e Marcio Castro.

Contando a “história” do livro a partir da segunda parte, denominada Odisseia, quando Leopold, após preparar o café da manhã, sai de casa a peregrinar por Dublin até retornar e reencontrar Molly em sua cama, dezoito horas depois, os adaptadores lograram teatralizá-la de uma maneira no mínimo engenhosa, ao conceberem um espetáculo processional (relativo a procissão), no qual o público é obrigado a acompanhar os atores em deambulação. Tudo começa no galpão da Escola Livre de Teatro, onde acontece a cena inicial, passada na casa do casal, em que se vê Leopold tracejando no chão com giz seus planos para aquele dia 16 de junho de 1904 até deixar o local com Molly ainda dormindo no quarto.

Realizado por um ator e uma atriz da Companhia Estrela D’alva, de Santo André (SP), acompanhados de músicos convidados, o espetáculo, ao deixar o galpão, dirige-se para as ruas laterais à ELT e para a praça Rui Barbosa, voltando depois para o local de origem, no qual se encerra com a parte que seria o clímax do romance, o monólogo interior de Molly Bloom. Nesse percurso, sempre conduzido pelo ator que interpreta Leopold (Paulo Gircys), o público vai se deparando com algumas cenas “clássicas” de Ulisses, como, por exemplo, o enterro de Dignam e a reunião no bar de Barney Kiernant, ambas concebidas de modo bem criativo, apoiando-se sempre na teatralidade.

Eis aí um paradoxo interessante: embora Ulisses à Deriva não deixe de ser um espetáculo bastante falado, na medida em que, enquanto caminha, o ator a todo instante recita trechos referentes à sua personagem no romance, quase sempre impossíveis de serem absorvidos plenamente pelo público, a relação que o ator (por meio do texto) vai estabelecendo com o entorno, e com os outros integrantes do grupo que a ele vão se agregando, conferem a devida teatralidade requerida à obra.
É nesse jogo, nesse embate entre o que é falado, a revelar aquilo que a personagem está pensando, e as ações físicas, aquilo que ela faz enquanto caminha, que o espetáculo não só adquire corporeidade como também sentido, tornando-se, sim, inteligível. Contudo, como não poderia deixar de ser, tal embate não se dá entre “vozes” harmônicas, de modo a constituir uma polifonia. Pelo contrário: por fidelidade de espírito ao original, a verdadeira fidelidade em qualquer adaptação, o discurso é, por excelência, cacofônico. Não à toa, Ulisses à Deriva é todo pontuado por uma trilha sonora, executada ao vivo pelo conjunto À Deriva, marcadamente dissonante.

Na passagem de uma arte analítica, como é o romance no âmbito da literatura, para uma arte sintética como o teatro, percebe-se que o foco do espetáculo procura se restringir à relação do casal, o Odisseu e a Penélope dos tempos modernos, revisitados numa perspectiva contemporânea, na qual a ênfase recai sobre Molly. Em que pese ela não ser a personagem principal, aquela que conduz, literalmente, o espetáculo como um todo, e que por isso jamais sai de cena, é ela a figura central no sentido simbólico, enquanto mulher e esposa insatisfeita, a rondar os pensamentos e as ações de seu angustiado marido. Algo mais ou menos parecido com o que se dá no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, embora a comparação seja um tanto temerária.

De todo modo, se há uma chave mais ou menos segura para se interpretar Ulisses à Deriva, ela é oferecida ao público somente no solilóquio final de Molly, verdadeiro desfecho a conferir sentido, se não a toda, pelo menos a parte da trajetória peripatética guiada até ali por Leopold. Vale a pena acompanhá-lo nessa jornada? Sem dúvida, especialmente se você estiver disposto a refletir sobre o ser (ou o não-ser) feminino, tema desenvolvido com bastante requinte e sensibilidade na obra do grupo andreense.

Em tempo: O crítico (ainda) não leu Ulisses.

Rodrigo Morais Leite é é mestre e doutoraRodrigo Morais Leite (Foto nº 2) (1).JPGndo em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), onde desenvolve pesquisa voltada às áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Leciona teoria teatral na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos.

 

 

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