Apreciação Crítica de As Presepadas de Damião

APRECIAÇÃO CRÍTICA DE  “AS PRESEPADAS DE DAMIÃO – DE COMO FEZ FORTUNA, VENCEU O DIABO E ENGANOU A MORTE COM AS GRAÇAS DE JESUS CRISTO”

por Mariana Senne

A Damião e Cia. de Teatro começa o espetáculo “As presepadas de Damião” com um cortejo de maracatu que, pela precisão rítmica e pelo entusiasmo dos brincantes, compreende-se claramente o objetivo da trupe: criar respiros poéticos e rupturas no cotidiano da cidade.

Acompanharemos a trajetória de Damião, o bebum cachaceiro que, ao oferecer guarida a Jesus Cristo e São Pedro, recebe em troca de sua hospitalidade três graças.  Incitado a escolher entre o dinheiro e o reino dos céus, ele acaba por elaborar uma estratégia para trapacear a morte e o faz com astúcia e muito bom humor.

Em tempos de intolerância e obscurantismo religioso, em que a bancada da Bíblia no Congresso aprova a toque de caixa projetos de lei que representam um retrocesso em relação as liberdades individuais, como a criminalização do aborto, trazer à cena figuras religiosas  como São Pedro e o menino Jesus em chave de comédia e deboche, acaba ganhando uma força de provocação e resistência. Essa energia anárquica, também presente na figura do anti-herói Damião, que nega a sociedade do trabalho e da competência em troca de festa, farra, folia e forró parece ser a força da encenação. Ao ser perguntado no início da peça, se vai ao bar ou à igreja, ele responde certeiro: ao bar, como quem quer nos fazer lembrar que o prazer e a diversão fazem parte intrínseca da existência. A figura de Damião, muito bem construída na chave da Commedia dell’arte numa mistura de Arlecchino e Puncinela com grifos grotescos, com sua bisnaga na mão, que ora vira genitália ora porrete, faz apartes geniais para a platéia num ótimo timing. Entretanto, na tarde de ontem, quando um outro Damião se aproximou da roda do teatro, um Damião real, o bebum da praça, os brincantes da Cia. perderam a oportunidade de pontuar essa existência concomitante entre ficção e realidade. Mas para nós, do público, é evidente que o Damião fictício, na sua plasticidade de máscara, inspirado na cultura popular  é  divertido e engraçado, enquanto o Damião real é por vezes desagradável e nem sempre benquisto.

Acredito que uma simples pontuação do grupo, deixando claro para a platéia que está ciente da presença desse Damião real e que o reconhece como tal, teria sido importante para trazer à cena uma dimensão mais contraditória do protagonista, do anti-herói.  

A encenação acerta em atualizar a dramaturgia, citando fatos e figuras da atualidade como o deputado afastado Eduardo Cunha, o governador que come merenda e, claro, a frase do momento: “primeiramente fora Temer”. Essa escolha provoca uma aproximação direta com a platéia, que prontamente reconhece que as questões abordadas pelo espetáculo não estão situadas numa tradição longínqua da cultura popular brasileira, mas pertencem ao tempo do agora e devem ser refletidas por aqueles que ali estão. Elas nos dizem respeito. Nós que aqui estamos precisamos todos aprender a morrer.

E, nesse sentido, lanço uma pergunta final ao grupo: por que a irmã do protagonista, Dona Cosma, a única figura feminina da peça, não foi construída também a partir do mesmo pressuposto de atualização? Neste caso assistimos a uma espécie de exacerbação do clichê feminino: uma histeria sempre presente, um jeitão azedo de ser e o interesse  fundamentalmente pela grana, o que poderia ser traduzido grossamente por: mal comida, histérica e gananciosa. Ora, o grupo poderá argumentar que Dona Cosma pertence à cultura popular, e que a comédia deve ser livre e não poiliticamente correta. De fato, uma arte politicamente correta será cartilha e não provocação ao público, e, evidentemente chata. Entretanto, é preciso assumir que muitas vezes a cultura popular e a dita comédia tradicional são machistas e acabam por reforçar preconceitos. E, como a comédia parece ser o forte do grupo, e também da ótima intérprete que traz à cena Dona Cosma, é importante a provocação: Como trabalhar com um material que vêm diretamente da cultura popular brasileira, do cordel, e que traz traços machistas provocando o riso a partir da desqualificação da mulher, sendo capaz de construir um comentário sobre o material? Ou seja, já que qualquer peça literária  pode ser interpretada de formas muito diferentes, dependendo de um projeto global de trabalho que evidencie uma de suas leituras possíveis, como construir um diálogo efetivo com o material dramatúrgico? E, já que a dramaturgia do espetáculo evidencia a dimensão atual com suas piadas e gagues, como lidar com Dona Cosma num tempo de embate entre aquelas que frequentam a marcha das mulheres e  outras belas, recatadas e do lar que preferem ficar em casa lendo a revista Veja?  

Pontuo essa questão de forma direta, pois acredito que a Damião Cia. de Teatro é bastante talentosa em sua verve para a comédia e sinto ser urgente se pensar os múltiplos sentidos do humor e do riso para a construção de um teatro popular atual. Vida longa a Damião Cia. de Teatro!  

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Mariana Senne é uma das fundadores da Cia. São Jorge de Variedades onde realizou diversos projetos de pesquisa de 1999 a 2012. Trabalha também em parceria com outros artistas e coletivos da cena paulistana e da cena livre na Alemanha como o grupo berlinense Andcompany&Co. e o coletivo Friendly Fire da cidade de Leipzig. No último ano cursou uma especialização em encenação no Mestrado “Encenação das Artes e das Mídias” na Universidade de Hildesheim, subsidiada pela bolsa de estudos do DAAD. Atualmente vive e trabalha entre a Alemanha e o Brasil onde realiza projetos de criação e pesquisa. Foi professora de interpretação e corpo na Escola Livre de Teatro entre 2007 e 2012.