História

Ao pensar o teatro como veículo do crescimento humano não quero dizer com isso [que se deva] transformá-lo em uma tribuna ou em um púlpito, mas sim reconhecer no teatro suas próprias leis, sua realidade. Foi essa imagem, obsessiva, que norteou a implantação da Escola Livre de Teatro de Santo André. A de criar um espaço onde o nosso papel (o dos artistas-orientadores) seria o de estimular o surgimento de “prospectores do teatro”. Ou seja, de artistas interessados em afirmar as potencialidades dessa linguagem. Caberia a nós não ensiná-los, mas provocá-los.

O alfabeto pegou fogo – ensino das artes em Santo André. Maria Thaís ¹

Concebida pela Profª Drª Maria Thais Lima Santos e pelo então Secretário de Cultura da cidade de Santo André, o ator Celso Frateschi, a ELT inaugurada em 1990 funcionou até o ano de 1994, quando foi fechada por uma nova gestão eleita no município. O projeto foi retomado em 1997, na volta do prefeito Celso Daniel a administração da cidade. Até hoje as atividades são desenvolvidas no prédio criado especialmente para abrigá-la, com a reforma do Teatro Conchita de Moraes e com a construção dos anexos para abrigar as salas de aulas e outros espaços de criação.

O objetivo fundamental era muito simples: construir “o embasamento, algo que permitisse passar para a comunidade os instrumentos necessários para se fazer teatro”. Neste sentido, a palavra “livre” parecia o elo essencial que uniria dois conceitos tão complexos e muitas vezes de difícil conjunção: o de escola (a práxis do ensino) e teatro (uma práxis da arte).

A opção por uma escola de teatro atendia a uma reivindicação dos núcleos de artistas da região. Ao mesmo tempo ia ao de encontro da forte tradição que a cidade possui na área desde fins da década de sessenta. Em Santo André surgiram grandes nomes do teatro nacional, muitos diretores passaram por aqui e um grupo de solidez e renome marcou época na década de setenta, o GTC (Grupo Teatro da Cidade).

A Escola Livre de Teatro de Santo André formou boa parte dos artistas que movimentam hoje a cultura teatral da cidade e região. Mobilizou igualmente milhares de pessoas em torno de duas versões da Mostra Internacional de Teatro (que contou com a participação de Kazuo Ohno Dance Company – Japão, Fundação Pontedera Teatro – Itália, Odin Teatret – Dinamarca, entres outros), das Mostras de Teatro de Rua , Mostras do Teatro Contemporâneo, bem como suas tradicionais Mostras de Processos e das temporadas com espetáculos produzidos pelas formações de atores.

Ao longo de sua história a escola vive constantemente em luta pela continuidade de sua existência. Fazendo parte da formação dos que por ela passam conviver diariamente com as dificuldades do fazer teatral e do ensino público nos dias de hoje. Além da convivência, os aprendizes acabam por ter que buscar soluções e formas de lidar com esses problemas. Os fóruns, espaços abertos e discussões são, dessa forma, componentes dessa “grade curricular” não fixa.

Não a toa, nos últimos anos a escola passou por dois grandes movimentos de resistência pela continuidade de seu projeto pedagógico em seus moldes “livres” originários. Foram eles o ELT em Alerta em 2009 e o ELT  Livre em 2013. Os dois movimentos tiveram grande visibilidade e apoio vindo de diversas partes do país.

Ainda que tenha se transformado, crescido estruturalmente e acrescentado novas variantes ao seu plano pedagógico nesses 25 anos de existência – o que era de se esperar de um centro artístico em movimento -, a ELT consolidou-se como projeto de referência nacional na área da formação artística. Isso por força dos mestres, aprendizes e funcionários que construíram a paisagem humana desse espaço e a história de um centro gerador de grandes encontros e de ideias para o teatro.

Foi na ELT que uma geração de jovens artistas, hoje importantes lideranças no meio teatral, e mestres mais experimentados puderam e podem “aprender a ensinar” a arte do teatro, ao mesmo tempo que amadurecem a própria arte. Não à toa, a ELT tornou-se referência para projetos de formação teatral no Brasil, como os do Galpão Cine-Horto, do Grupo Galpão, de Minas Gerais, e osda Escola Livre de Teatro de Florianópolis, de Santa Catarina.

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¹ Fragmento de documento escrito em 1992 quando da transição do governo de Celso Daniel para o de Newton Brandão. Pelo que foi possível recuperar, ele não chegou a ser publicado.