Pedagogia

O objetivo fundamental da criação da Escola Livre era muito simples: construir “o embasamento, algo que permitisse passar para a comunidade os instrumentos necessários para se fazer teatro”. Neste sentido, a palavra “livre” parecia o elo essencial que uniria dois conceitos tão complexos e muitas vezes de difícil conjunção: o de escola (a práxis do ensino) e teatro (uma práxis da arte).

A opção por uma escola de teatro atendia a uma reivindicação dos núcleos de artistas da região. Ao mesmo tempo ia ao encontro da forte tradição que a cidade possui na área desde fins da década de sessenta. Em Santo André surgiram grandes nomes do teatro nacional, muitos diretores passaram por aqui e um grupo de solidez e renome marcou época na década de setenta, o GTC (Grupo Teatro da Cidade)

Luis Alberto de Abreu, também um dos mentores do projeto original da Escola Livre de Teatro, cita em um artigo publicado nos Cadernos da ELT em junho/2004 como referência de seu trabalho na busca da horizontalidade de relações artísticas entre seus integrantes: “Para que esse processo se instalasse, no entanto, foi preciso rever conceitos ligados à arte teatral. Um deles é o subjetivismo exacerbado que comumente acompanha o trabalho artístico. Como conciliar a ausência de hierarquias, fixas e desnecessárias, com a distribuição de papéis horizontalizada (o ator é também dramaturgo, diretor, mas também operador de som…) Idéias, textos, soluções compartilhadas, examinadas, confrontadas e debatidas pressupõem capacidade de abrir mão de pequenas e grandes vaidades pessoais. Até o estabelecimento de um “acordo” entre os criadores. Como evitar que o senso comum seja o resultado da criação? O “acordo” estabelecido não é um acordo de cavalheiros. É um acordo tenso, precário, sujeito, muitas vezes, a constantes reavaliações durante o percurso. Confrontação (de idéias e material criativo) e acordo são pedras angulares no processo colaborativo”.

Na apresentação do livro o Alfabeto Pegou Fogo – Ensino das Artes em Santo André, Celso Frateschi – Secretário de Educação, Cultura e Esportes e Altair José Moreira – Diretor do Departamento de Cultura, levantam a bandeira da necessidade de “criar ilhas de desordem” num país onde a cartilha que rege a cultura é o mercado, a centralização e a reprodução de modelos impostos pela indústria cultural.

Maria Thaís Lima Santos e Sérgio Ricardo de Carvalho organizaram o Alfabeto Pegou Fogo em três capítulos, correspondentes a três espaços de formação artística daquele momento na Cidade de Santo André: 1) Escola Municipal de Iniciação Artística – EMIA; 2) Casa do Olhar e 3) Escola Livre de Teatro – ELT.

No texto do “Projeto Piloto” havia apenas alguns dos princípios que deveriam nortear a futura escola. Nada de organogramas detalhados ou conteúdos programáticos de cursos. Na introdução podia-se ler: “Necessitamos criar novas opções de centros facilitadores, onde as pessoas interessadas na pesquisa de linguagem teatral disponham de um espaço onde o ofício possa ser estudado e aprofundado”.

Basicamente, são duas as espécies de escolas teatrais encontráveis no Brasil: ou adotam o modelo acadêmico clássico, que equilibra formação teórica e prática segundo uma perspectiva mais histórica do que estética e mais passiva que ativa, onde os professores muito frequentemente não mais exercem atividades artísticas, ou têm como objetivo apenas fornecer certificados profissionais e fabricar atores descartáveis, conquistados com a ilusão do trabalho na televisão.

O intuito básico da proposta da Escola Livre era desde o princípio – e mantém-se assim até hoje -, conseguir a mobilidade de uma oficina cultural sem perder de vista a perspectiva formacional do aluno. Cuidar de seu crescimento artístico e instrumentalizá-lo em termos de conhecimento teatral sem amarrá-lo a obrigações curriculares pré-fixadas.

A palavra “livre” do nome foi sempre invocada e reafirmada. A escola é em primeiro lugar um espaço de formação do indivíduo. A dimensão humana caminha passo a passo a dimensão profissional. Para isso tornar-se realidade, foi preciso desvincular-se das exigências curriculares do Ministério da Educação e desobrigar-se de conferir diplomas profissionais. Desde o início a ELT afasta-se cada vez mais dos padrões normais de ensino teatral e se lança na busca da experimentação.

 

TEXTOS SOBRE A PEDAGOGIA

 

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